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Águas Profundas

Vídeos · 57 min · 19 capítulos · publicado em 01/11/2026

4 lendas sombrias do folclore brasileiro: Jurupari, Saci, Matinta Pereira e Mapinguari, completas

As lendas do folclore brasileiro mais sombrias deste canal, contadas inteiras em um só vídeo: o Jurupari, espírito da noite dos povos do rio Uaupés que os missionários chamaram de Diabo; o Saci das cartas que leitores mandaram a um jornal de São Paulo em 1917; a Matinta Pereira, a velha do assobio que cobra fumo no Pará; e o Mapinguari, o bicho da mata que o cientista David Oren, do Museu Goeldi, foi procurar com barco e frasco.

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Narração com voz sintética e imagens geradas por inteligência artificial, sob pesquisa e revisão humanas. Como o canal é feito.

Capítulos

Toque num capítulo para assistir a partir dali.

  1. Jurupari: o navio que queimou com as trombetas (1852)
  2. Barra, 1850: a cachoeira do Diabo
  3. Cinquenta cachoeiras do rio Uaupés
  4. O fogo no navio de Wallace
  5. Jurupari: nós nunca o vimos
  6. Saci: as cartas mais assustadoras de 1917
  7. Os cavalos da carta e as origens do Saci
  8. As cartas mais escuras sobre o Saci
  9. Como se prende (e se solta) um Saci
  10. Saci: o calmante que ficou
  11. Matinta Pereira: a velha do assobio no Pará
  12. O que se conta da Matinta em cada rio
  13. As raízes antigas da Matinta Pereira
  14. Matinta: a versão que ninguém suaviza
  15. Por que a Matinta Pereira cobra
  16. Mapinguari: o monstro da Amazônia e o cientista
  17. Mapinguari: as raízes antigas
  18. Mapinguari: os relatos que ninguém suaviza
  19. David Oren e os frascos: o que o laboratório disse

Quais são as lendas mais sombrias do folclore brasileiro? O que o vídeo conta

A lenda do Jurupari é a de um espírito da noite dos povos indígenas do norte do Brasil que os missionários, desde o século XVI, passaram a chamar simplesmente de Diabo. Couto de Magalhães escreveu em 1876 que, segundo os índios, o Jurupari é "um ente que de noite cerra a garganta das creanças, ou mesmo dos homens, para trazer-lhes afflicções e máos sonhos". O vídeo conta essa troca de nome pela viagem do naturalista Alfred Russel Wallace, que em 1852 levava oito trombetas do Jurupari num navio que pegou fogo no Atlântico.

A lenda do Saci, nas cartas de 1917, não é a do mascote de festa escolar: é a de um diabinho peludo, de camisa vermelha e uma perna só, que a mãe de uma menina de quatro anos usava para as crianças dormirem, e que gente adulta jurava ter visto numa porteira, numa estrada ou num quarto de arreios. Em janeiro de 1917 o jornal O Estado de S. Paulo pediu aos leitores que contassem como receberam o Saci quando crianças; as respostas viraram, em 1918, o livro O Sacy-Perêrê, organizado por Monteiro Lobato. O vídeo conta a primeira carta, a de uma senhora que passou anos vendo o Saci em qualquer sombra, e as mais escuras que vieram depois.

A lenda da Matinta Pereira, do Pará, fala de um assobio na trilha, à noite, e de uma velha que cobra fumo de quem passa. Este vídeo reúne o que se conta de rio em rio e mostra o que, dessa lenda, chegou ao papel.

O Mapinguari existe? Nenhuma prova física confirmou: as amostras das expedições de David Oren, do Museu Goeldi, deram pelo de cutia e DNA de tamanduá-bandeira. Este dossiê segue o ornitólogo que ouviu os caçadores como quem ouve um dado e foi à mata atrás de prova, com barco e frasco.

Duração
57 minutos, 4 partes, 19 capítulos
Narração
voz sintética, com pesquisa e revisão humanas
Idioma
português do Brasil
Fontes
Wallace (1853), Couto de Magalhães (1876), Lobato (1918), Oren (1993, 2001) e outras abaixo
Publicado
estreia em 1º de novembro de 2026, 20h

O que está no papel

Separamos o que tem livro, ano e página do que é só relato oral. Resumos nossos.

O Jurupari no rio Uaupés

Alfred Russel Wallace, A Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro (1853), capítulo sobre os índios do Uaupés

Wallace anotou entre os povos do Uaupés (ele cita Tucanos, Tarianas e Cobeus) que, quando troveja, o Jurupari está com raiva, que a morte natural é obra dele e que, num eclipse, ele está matando a lua, e por isso todos fazem barulho para espantá-lo. Escreveu também sobre a música do Jurupari, que é segredo desses povos; a página e o vídeo não descrevem o ritual.

O pesadelo que aperta a garganta

Couto de Magalhães, O Selvagem (1876), Família e religião selvagem

Couto escreveu que as tradições sobre o Jurupari, só achadas no norte do Império, estavam incompletas, mas que a palavra equivalia ao que as amas de leite chamavam de pesadelo: um ente que de noite aperta a garganta das crianças e dos homens e traz maus sonhos. Para ele, os índios não tinham a ideia de um espírito só mau, como o Satanás dos cristãos, e o próprio Jurupari não estava nesse caso.

A primeira carta: o calmante da mãe

O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito (1918), «O primeiro depoimento», de uma senhora anônima

A primeira carta publicada é de uma senhora que não assinou. Ela conta que aos quatro anos ouvia a mãe, que cuidava dos meninos da casa enquanto os patrões iam ao teatro, descrever o Saci como um diabinho muito peludo, de camisa vermelha e uma perna só, que carregava para uma mata distante as crianças desobedientes. Escreveu que a influência do Saci sobre ela foi terrível até poucos anos antes e que, mandada à chácara, parecia-lhe que um Saci vinha pulando atrás dela e dizia: se corres, é pior. Numa dessas fugas ela caiu dentro de um tanque de natação.

O inquérito do Estadinho

O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito (1918), prefácio e chamada do inquérito

Segundo o prefácio, a ideia nasceu de uma conversa na redação, à noite, quando a guerra foi posta de parte e só se falou de Saci. O jornal abriu as colunas com três perguntas: como o leitor recebeu o Saci na infância e de quem; como ele é hoje na região; e que casos, passados ou ouvidos, o leitor sabe. Monteiro Lobato organizou as respostas em livro no ano seguinte e deixou no prefácio a frase de que o medo é o pai da bicharia.

O que se conta

Tradição oral do Pará

Uma velha que aparece nas trilhas à noite, anunciada por um assobio, e cobra fumo de quem passa. Quem tem, paga, e ela some; quem não tem, dizem, paga de outro jeito. A forma muda de comunidade para comunidade, e o episódio conta essas variações como relato.

Por que fumo

Leitura do episódio, não fonte

Por que fumo, e não comida ou dinheiro? O vídeo chama atenção para um detalhe: fumo só existe depois que alguém planta, colhe, seca e enrola. Não é um bicho pedindo; é alguém cobrando o que só gente produz.

O retrato falado de 1993

David C. Oren, Goeldiana Zoologia nº 19 (20 de agosto de 1993)

No artigo em que perguntou se preguiças-terrícolas teriam sobrevivido na Amazônia, Oren reuniu o que as testemunhas descreviam: pelo comprido e avermelhado, força enorme, couro muito duro, voz parecida com um homem gritando, pegadas redondas, fezes como as de cavalo e, para alguns, pés virados para trás. Anotou também que, pelos relatos, o bicho só morre ferido na barriga, perto do umbigo, no olho ou dentro da boca.

O livro onde ele não está

Couto de Magalhães (1876) e Sílvio Romero (1897): nenhuma menção · Carlos de Vasconcelos, Deserdados (1922), p. 113

O Mapinguari não aparece em O Selvagem nem nos Contos Populares de Romero. Chega ao papel pela literatura dos seringais: no romance Deserdados, de 1922, é um guerreiro fabuloso, com cabeça e pés de homem, garras de onça e uma carapaça de jabuti que a faca e a bala não atravessam. É ficção, e o vídeo a narra como ficção.

Fontes

As obras e reportagens citadas no vídeo, com link para o original. A redação desta página é do canal.

  1. A Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro, Alfred Russel Wallace (1853)London, Reeve & Co. Viagem pelo rio Negro e Uaupés (1850–1852), lista de objetos do rio Uaupés e o incêndio do brigue Helen. Tradução nossa. O autor morreu em 1913. Ler o original (domínio público)
  2. O Selvagem, Couto de Magalhães (1876)Rio de Janeiro, Typ. da Reforma. Parte II, Família e religião selvagem (o Jurupari como pesadelo; o cristianismo e os deuses selvagens). O autor morreu em 1898. Ler o original (domínio público)
  3. Brazil, the Amazons and the Coast, Herbert H. Smith (1879)New York, Scribner. Mitos dos índios do Amazonas (Jurupary), com a citação de Claude d'Abbeville (1614). Tradução nossa. O autor morreu em 1919. Ler o original (domínio público)
  4. Poranduba Amazonense, João Barbosa Rodrigues (1890)Rio de Janeiro, Typ. G. Leuzinger & Filhos. Introdução: os cronistas que chamaram o Jurupari de demônio; o Anhangá e o Jurupari. O autor morreu em 1909. Ler o original (domínio público)
  5. O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito, Monteiro Lobato (org.) (1918)São Paulo, Secção de Obras d'O Estado de S. Paulo. Prefácio, o inquérito e os depoimentos citados; só o texto de 1918 foi usado. Organizador e depoentes em domínio público. Ler o original (domínio público)
  6. Lei nº 11.669, de 13 de janeiro de 2004, Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (2004)Institui o Dia do Saci, a ser comemorado todo 31 de outubro (lei estadual de São Paulo). Ver a fonte original
  7. Did ground sloths survive to Recent times in the Amazon region?, David C. Oren (1993)Goeldiana Zoologia nº 19, Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém. Citamos só fatos. Ver a fonte original
  8. Does the endangered xenarthran fauna of Amazonia include remnant ground sloths?, David C. Oren (2001)Edentata nº 4, junho de 2001. Ver a fonte original
  9. Beasts in the Mist, Marguerite Holloway (1999)Discover, 1º de setembro de 1999. Ver a fonte original
  10. A Huge Amazon Monster Is Only a Myth. Or Is It?, Larry Rohter (2007)The New York Times, 8 de julho de 2007, de Rio Branco (cópia no Internet Archive). Ver a fonte original
  11. Nota de pesar pela partida de David Conway Oren, Museu Paraense Emílio Goeldi (2023)Oren morreu em 7 de setembro de 2023, em Brasília, aos 70 anos. Ver a fonte original
  12. Deserdados, Carlos de Vasconcelos (1922)2ª edição, Leite Ribeiro, p. 113. Romance; o autor morreu em 1923. Ler o original (domínio público)
  13. Mistério: catadores de açaí afirmam ter visto um mapinguari, Rondoniaovivo (2014)7 de outubro de 2014. Relato à imprensa; nomes omitidos. Ver a fonte original

Para ler

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  1. O Selvagem, Couto de Magalhães (1876)ler grátis (domínio público) · Comprar no Mercado Livre ↗
  2. Contos Populares do Brasil, Sílvio Romero (1885)ler grátis (domínio público) · Comprar no Mercado Livre ↗

Perguntas frequentes

Quais lendas estão neste vídeo?

Quatro lendas do folclore brasileiro, inteiras e nesta ordem: o Jurupari e o navio do naturalista Alfred Russel Wallace, que pegou fogo em 1852; o Saci das cartas enviadas a um jornal de São Paulo em 1917; a Matinta Pereira, a velha do assobio do Pará; e o Mapinguari, que o cientista David Oren foi procurar na mata.

Quem é o Jurupari na lenda?

É um espírito da noite dos povos indígenas do norte do Brasil. Couto de Magalhães (1876) anotou que, segundo os índios, ele aperta a garganta de quem dorme e traz maus sonhos; Wallace (1853) anotou no rio Uaupés que o trovão é a raiva dele e que, no eclipse, ele mata a lua.

Por que o Jurupari é chamado de Diabo?

Porque os missionários e cronistas, desde Anchieta e Nóbrega por volta de 1560, deram a ele os atributos do demônio cristão. Barbosa Rodrigues (1890) cita Laet e Marcgraf: 'jurupari et anhangá significant simpliciter diabolum'. Couto de Magalhães discordou: disse que os índios não tinham um espírito só mau como o Satanás.

O que é a lenda do Saci?

É a tradição de um ser de uma perna só, de carapuça vermelha, que aparece em porteiras, estradas e redemoinhos do interior do Brasil. Em 1876 Couto de Magalhães o registrou como o Saci Cererê, um pequeno indígena manco de um pé; nas cartas de 1917 ele aparece sobretudo como um menino negro de uma perna só, de olhos e lábios vermelhos.

Quem pôs o Saci na cabeça da menina da primeira carta de 1917?

Na primeira carta publicada, uma senhora anônima conta que quem lhe falou do Saci foi a mãe dela, que usava o diabinho como calmante para as crianças dormirem. O Saci, dizia a mãe, carregava para uma mata distante as crianças desobedientes.

Por que a Matinta Pereira cobra fumo?

Ninguém sabe ao certo, e o episódio não inventa uma resposta. Na tradição oral do Pará, o fumo é tratado como pagamento ou oferenda para passar pelo caminho dela. O vídeo chama atenção para um detalhe: fumo é coisa que só gente produz.

A Matinta Pereira aparece nos livros antigos?

Não em O Selvagem, de Couto de Magalhães (1876). Um registro antigo está no livro do naturalista Herbert Smith, de 1879, que descreve a matinta-pere como uma presença ouvida à noite perto dos engenhos de açúcar, às vezes na forma de um velho.

O Mapinguari existe?

Nenhuma prova física sustentou isso até hoje. As amostras das expedições de David Oren deram pelo de cutia e, nas fezes, só DNA de tamanduá-bandeira numa delas. Em 2007, o próprio Oren disse que, se um animal desses ainda existe, era uma pergunta que ainda não dava para responder.

Quem foi David Oren?

Ornitólogo americano do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. Em 1993 publicou a hipótese de que o Mapinguari seria a memória de uma preguiça-terrícola e fez várias expedições atrás de provas. Morreu em 7 de setembro de 2023, em Brasília, aos 70 anos.

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