Águas Profundas Águas Profundas
Episódio · a Cobra Grande, contada pelo lado dela: um filho que não larga a mãe, uma mãe que é escondida num pote com terra por cima, e um chamado que sobe do rio para o céu e ainda espera resposta. Em volta, o que os livros do séc. XIX guardaram sobre a cobra do fundo: o lago onde pais deixavam as filhas numa ilhota e o homem de Cametá que viajava pelo fundo dos rios.

A Cobra Grande Nunca Achou a Mãe Escondida no Pote

Uma mãe foi escondida dentro de um pote, com terra por cima. Lá fora, no escuro, o filho chamava por ela: minha mãe, minha mãe. Ela não respondeu. Quem respondeu foi uma fruta, cheia de cuspe.

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16 min · 2453 palavras de narração · publicado em 25/10/2026 · 7 capítulos

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Capítulos

  1. A mãe escondida no pote
  2. A mulher que sabia fiar
  3. A sorveira
  4. Solimões: a avó que dormia
  5. O forte de Belém e a cobra de verdade
  6. O lago Juá e o homem de Cametá
  7. Quando eu te chamar

Transcrição

Abertura

Uma mãe foi escondida dentro de um pote, com terra por cima. Lá fora, no escuro, o filho chamava por ela: minha mãe, minha mãe.

Ela não respondeu. Quem respondeu foi uma fruta, cheia de cuspe.

O filho era a Cobra Grande. Essa história é do rio Negro, contada na língua geral, e foi anotada por João Barbosa Rodrigues, que a publicou em 1890 num livro chamado Poranduba Amazonense.

Hoje eu vou ler as duas versões que ele guardou, a do rio Negro e a do Solimões. Mas não para por aí: no fim deste episódio, o que outros livros do mesmo século contaram sobre a cobra do fundo, um lago de prova para as moças, e um homem que, diziam, viajava pelo fundo dos rios.

A história começa num dia qualquer. Uma mulher chega na casa de um homem casado e pede para ficar.

Ato 1 — A mulher que sabia fiar

O homem perguntou: que sabes tu fazer? Ela respondeu: sei fiar. Então fia, ele disse. E deu algodão para ela.

Antes de seguir, repare num detalhe da página. Na língua geral, quase toda frase traz uma palavrinha, paá, e embaixo Barbosa Rodrigues traduz: contam, dizem. Havia, contam, antigamente. A cobra, dizem, gritou. Quem conta nunca diz que viu. Diz que contaram.

A mulher ficou na casa dele. E aqui vem a coisa que o livro diz sem explicar. Deixavam a mulher sozinha, e não davam nada para ela comer.

Então ela ia no ninho das galinhas, tirava os ovos e chupava por um furinho, e deixava as cascas inteiras, como se ninguém tivesse mexido.

A fome dela é o fato que abre esta história. O dono da casa reparou. O livro não diz como ele descobriu. Diz o que ele fez.

O homem voltou do mato com dois ovos de mutum. Quebrou um. E colocou dentro dele um fio de cabelo humano.

Por que ele fez isso, o livro não conta. Não conta de quem era o cabelo. Conta só que a mulher, com fome, foi chupar os ovos.

E a barriga dela começou a crescer. Cresceu tanto que ela já não conseguia andar.

Mas o que vem agora é a parte que me fez parar de ler da primeira vez. Preste atenção em quem fala primeiro. Porque não é ela.

Ato 2 — A sorveira

O homem chegou e disse: vamos apanhar sorva, que eu achei um pé aqui perto.

E da barriga da mulher, alguém respondeu: eu vou contigo, minha mãe.

Eles se olharam: que é isto? E a barriga falou outra vez: eu vou contigo, minha mãe.

Mesmo assim, ele levou a mulher até a sorveira, com a barriga grande. Lá chegando, o homem perguntou para o ar: a gente corta ou sobe?

E de dentro da barriga veio a resposta: eu mesmo subo.

E aí você vai entender para que servia a fruta. O homem fez uma coisa estranha. Tirou da árvore a sorva mais graúda, tirou o miolo dela e encheu de cuspe.

Da mulher, que estava sentada, saiu uma cobra, e a cobra subiu pela sorveira. A metade dela ainda estava na barriga, e a cabeça já estava lá em cima, na ponta da árvore. E ia engrossando, enquanto subia.

O homem disse: quando ela acabar de sair, mete a ponta do rabo na casca da sorva. E a mulher meteu.

Aí fugiram. O homem carregou a mulher nas costas até em casa.

Lá de cima, a cobra gritou: minha mãe! Minha mãe!

E quem respondeu foi a sorva. O cuspe respondeu no lugar da mãe: uh, uh.

Só que aí o homem ainda não tinha terminado. Em casa, ele meteu a mulher dentro de um pote e pôs terra por cima.

A cobra seguiu o rastro até a casa. Chegou. E chamou. E chamou. Debaixo da terra, ninguém respondeu.

Então ela pulou no rio. Procurou o fundo, e não achou. Num rodapé, Barbosa Rodrigues explica o que isso quer dizer: ela não achou fundura bastante para viver debaixo d'água.

E subiu. Foi para o céu. De lá, a Cobra Grande chamou o homem e disse: meu avô, tu escondeste minha mãe. Agora eu vou embora para o céu. Não achei lugar no rio.

Meu avô. A cobra chama de avô o homem que meteu a mãe dela no pote. Não xinga, não ameaça. Faz um pedido.

E quando eu te chamar, tu me responderás. Quando eu aparecer, capina a tua roça, porque vai ser o começo do verão.

O rodapé diz ainda que o Serpentário aparece no Amazonas em setembro, e anuncia o verão. A mesma cobra que perdeu a mãe virou o relógio da roça.

Se na sua família alguém conta da cobra que mora no fundo e chama de noite, me diz nos comentários de que rio vocês são. Eu leio um por um.

Mas fica uma pergunta no ar: quem era ela antes de entrar naquela casa? O relato do Solimões conta. E conta pior.

Ato 3 — Solimões: a avó que dormia

Ele vem algumas folhas antes, sob o mesmo título. Abre assim: havia, contam, antigamente, uma moça que o demônio emprenhou.

Eu disse demônio porque é a palavra da tradução. Mas a nota de pé de página traduz o original de outro jeito: a sombra, a coisa que faz mal, a visão.

Ela teve a Cobra Grande. E a cobra foi crescendo, sem nunca largar a mãe. Para onde a mãe ia, ela ia junto.

Queriam tirar a moça de perto da cobra, e não conseguiam. Nesta versão não aparece homem nenhum. Mas isso não quer dizer que a mãe ficou.

Então a mãe mandou a cobra subir numa sorveira. E fugiu dela.

A cobra chorou. Foi até a avó e pediu: minha avó, me dá minha mãe.

A avó respondeu: eu não sei onde ela está.

Então a cobra disse: eu já vou, minha avó. Tu não queres me dar minha mãe. Escuta, então, quando eu gritar. E me responde.

E voou para o céu.

Já alta a noite, veio o grito lá de cima. A velha estava dormindo e não ouviu.

Quando pela terceira vez a voz estava para se apagar, a velha acordou.

E o livro fecha assim: é por isso que a gente não perde a pele. E só perde a pele aquilo que respondeu: os lagartos, as cobras e as árvores.

Se a velha abriu a boca, o livro cala. Fica só o preço: lagarto, serpente e árvore trocam de pele e renovam. A gente, não. A gente envelhece.

E a linha que fecha: hoje ela aparece no céu.

Compare os dois relatos. No rio Negro quem engana é um homem, com uma fruta e um pote. No Solimões não existe truque. Quem falha é o sono.

Só que a página guarda mais. Sob o título há uma nota que não é lenda: é de gente com quem o autor conversou.

Ato 4 — O forte de Belém e a cobra de verdade

A nota diz que, sob esse título, há vários contos de uma cobra fantástica que vive pelos lagos e rios. Que o povo quer que ela exista de verdade. E que os olhos dela soltam luz, como faróis.

Mas o que vem depois é a frase que me fez ler a página duas vezes. Uns afirmam que já viram. Um me disse que em 1835 ela aparecia todos os dias por baixo do forte de Belém. Outro, que viu no rio Purus.

Mas o que ele escreve em seguida é o que me prende. Barbosa Rodrigues termina: o que admira é que ambos eram pessoas circunspectas. Gente séria. Ele não diz quem eram.

Antes de Smith, um inglês que chamava tudo isso de fábula tinha ouvido a pancada. Henry Walter Bates, naturalista, publicou em 1863 o que aconteceu numa noite em que ele dormia no barco, no rio Cupari, um afluente do Tapajós.

Acordou com um golpe pesado no costado, perto da cabeça dele, e o barulho de um corpo grande caindo na água. Depois, silêncio. De manhã, as galinhas andavam soltas pelo barco, a gaiola pendurada no costado tinha um rasgo no fundo, e faltavam duas.

O dono do sítio disse que tinha sido uma sucuruju, que fazia meses rondava aquele trecho de rio e levava pato e galinha dos portos das casas. Os rapazes dos sítios se juntaram em grupos de canoas, varreram as enseadas dos dois lados, e acharam a cobra tomando sol num tronco, na boca de um riacho de lama. Mataram com arpão.

Bates mediu no dia seguinte: quase seis metros. E achou que não era das grandes. Mediu depois couros ainda maiores, e ouviu falar de bichos mortos com o dobro do tamanho.

No Tefé, uma delas quase levou o filho de um vizinho, um menino de uns dez anos, que tinha ficado vigiando a canoa na beira da praia enquanto o pai entrava no mato. Os gritos trouxeram o pai, que agarrou a cobra pela cabeça e abriu as mandíbulas dela à força.

Os nativos, anota Bates, acreditam numa serpente d'água monstruosa, de muitas dezenas de braças, que vai aparecendo em lugares diferentes do rio. Chamam de Mãe d'Água, a mãe, ou o espírito, da água.

Para ele, tudo nasceu de sucurujus fora do comum, e as lendas corriam entre velhos e moços, ao redor do fogo, nos povoados isolados. É a explicação natural. Ela dá conta da galinha sumida. Não dá conta de um filho que procura a mãe.

Em 1879, um naturalista americano, Herbert Smith, escreveu quase a mesma coisa, sem nome de testemunha. Que os indígenas, quase todos, acreditam numa cobra d'água enorme, a Boia-açu, ou Mãe d'Água.

E que os pescadores dão a ela o aparecimento e o sumiço dos lagos pequenos e dos canais. Os igarapés, eles dizem, são o rastro do corpo dela. E quando ela vai embora de um lago, o lago seca, ou vira capim.

Quer dizer: a paisagem inteira seria a marca de uma cobra que passou. O rio não é a casa dela. O rio é a pegada.

O lago Juá e o homem de Cametá

Agora um livro mais velho, O Selvagem, de Couto de Magalhães, de 1876. Antes de chegar na cobra, ele conta de Rudá, que ele chama de deus do amor. A moça com saudade do namorado ausente, longe na caça ou na guerra, ia para a beira do rio ao morrer do sol ou ao nascer da lua, estendia o braço direito na direção em que achava que ele estava, e cantava.

Ele traduziu assim: "Ó Rudá, tu que estás nos céus e que amas as chuvas, faze com que ele, por mais mulheres que tenha, as ache todas feias; faze com que ele se lembre de mim esta tarde, quando o sol se ausentar no ocidente."

Mas isso é a parte doce. Porque o mesmo deus do amor, escreveu Couto, tinha também uma serpente a seu serviço, que reconhecia as moças que tinham ficado virgens.

Poucas folhas adiante, o bicho volta. Os Tupinambás do Pará, segundo Couto, acreditavam que havia serpentes assim no lago Juá, pouco acima de Santarém. E que elas sabiam das moças.

Quando uma moça era suspeita de ter perdido a virgindade, os pais levavam a moça até o lago. Deixavam ela sozinha numa ilhota, com os presentes para a cobra. E iam para a margem da frente.

E de lá, da outra margem, começavam a cantar. O canto, na tradução de Couto, chamava a cobra arara e dizia: aqui está o teu sustento.

A cobra vinha à tona cantando, até avistar a moça. Se ela fosse mesmo virgem, a cobra recebia os presentes e dava a volta no lago cantando baixinho, e o canto fazia os peixes dormirem, e os viajantes pescavam para a viagem.

Se não fosse, a cobra devorava a moça, dando roncos medonhos.

Couto anota, com calma, que a lenda devia servir para proteger a inocência das moças pelo terror. Eu leio de novo a parte que ele passa depressa: os pais na outra margem, cantando para a cobra vir.

Algumas folhas antes, o mesmo volume traz a frase sobre o homem de Cametá. É curta. Mas vem precedida de um trecho que eu não consigo ler sem pensar no pote.

Couto conta que muitas tribos do baixo Tocantins e do Amazonas enterravam os mortos na própria casa. E diz que viu isso. Faziam assim na esperança de, quando dormissem, serem visitados pela alma de quem amaram.

O livro não liga isso à história da Cobra Grande, e eu não vou ligar por ele. Só registro: nas duas, alguém fica debaixo do chão da casa, e alguém espera um chamado no escuro.

Na sequência, ele diz que recolheu duas lendas em fevereiro daquele ano, no Pará, e que elas parecem mostrar que os tupis admitiam a transformação de gente em outros seres. E vem a frase. Eu vou ler inteira.

Couto de Magalhães escreveu: "Há ainda hoje em Cametá um célebre Honorato a quem a população indígena do lugar atribui a faculdade de transformar-se em peixe ou em cobra, e viajar pelo fundo dos rios quando lhe apraz."

Ainda hoje, em 1876. Um homem com nome, numa cidade com nome. Todo mundo do lugar sabia. E ele continuava morando lá.

Couto não diz se conheceu o Honorato. Não diz o que ele achava disso. Diz que essas crenças eram o resto de alguma crença antiga dos tupis, que, nas palavras dele, ou não chegou até os nossos dias, ou nós não soubemos recolher.

Encerramento

E tem mais uma Cobra Grande no mesmo livro de Couto, e ela muda o sentido do fundo do rio. Na lenda de como a noite apareceu, ele escreveu que no princípio não havia noite, e que a noite estava adormecida no fundo das águas.

A filha da Cobra Grande diz ao marido: "Meu pai tem noite." Se queres dormir comigo, manda buscar lá, pelo grande rio.

Ali, ela é dona do fundo, um pai que guarda a noite. Na Poranduba, é um filho sem fundo onde morar. O mesmo nome nas duas pontas de uma família.

Ou nós não soubemos recolher. Eu fico com essa frase. Porque o que o livro de 1890 guarda é justamente um chamado sem resposta a tempo.

Uma mãe debaixo da terra. Uma fruta respondendo uh, uh. Uma avó dormindo enquanto a voz se apaga pela terceira vez.

E uma cobra no céu, que antes de ir embora deixou um pedido: quando eu te chamar, tu me responderás.

Setembro é o mês dela, diz a nota. Se você mora perto de um rio, olhe o céu numa noite dessas. Ela segue lá em cima, à espera.

Da próxima vez, a gente fica na beira da água, mas sai do fundo: o boto, que nos livros antigos não era festa nem namoro, e que fazia os lagos se acenderem em noite de lua. Se você quer ouvir, se inscreve no canal. Até lá.

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