Águas Profundas Águas Profundas
Episódio · em 1852, um naturalista que tinha subido cinquenta cachoeiras atrás da ‘cachoeira do Jurupari’ parou a uma semana dela, desceu o rio sem o irmão e embarcou para casa levando, entre as coleções, oito trombetas da música do Jurupari. O navio pegou fogo no meio do Atlântico. Por trás da viagem dele está a pergunta do título: como um espírito da noite dos povos do norte virou, na boca dos padres e dos viajantes, ‘simplesmente o diabo’.

Jurupari: o Espírito da Amazônia que os Missionários Chamaram de Diabo

O capitão desce até a cabine logo depois do café. E diz uma frase só. Acho que o navio está pegando fogo. Venha ver o que o senhor acha.

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15 min · 2074 palavras de narração · publicado em 25/10/2026 · 7 capítulos

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Capítulos

  1. O navio
  2. Barra, 1850: a cachoeira do Diabo
  3. A carta e a febre
  4. Os frades que nunca o viram
  5. Cinquenta cachoeiras
  6. O fogo
  7. Nós nunca o vimos

Transcrição

Abertura

O capitão desce até a cabine logo depois do café. E diz uma frase só.

Acho que o navio está pegando fogo. Venha ver o que o senhor acha.

Na proa, sai uma fumaça densa. Os marinheiros abrem as escotilhas, jogam carga fora, jogam água. Ninguém chega ao foco do fogo.

Lá embaixo, no porão, entre as caixas de um passageiro, vão oito trombetas que nenhuma mulher do rio Uaupés podia ver. As trombetas do Jurupari.

O dono das caixas se chama Alfred Wallace. Ele tinha subido cinquenta cachoeiras, doente, atrás de uma cachoeira com o nome do Jurupari. A cachoeira do Diabo. Parou a uma semana dela. E tinha deixado o irmão mais novo para trás.

Quando a noite chegar, este navio vai ser uma fornalha balançando no meio do oceano.

Ato 1 — Barra, 1850: o irmão e a cachoeira do Diabo

Dois anos antes. Barra do Rio Negro, a vila que hoje é Manaus.

Na véspera, chegaram umas vinte cartas de uma vez. Da Inglaterra, de Belém, da Califórnia. Algumas com mais de um ano. Wallace fica lendo até as duas da manhã.

De manhã, arruma a canoa para uma viagem de setecentas milhas. Um ano longe. E deixa instruções para o irmão mais novo, Herbert, que veio da Inglaterra para ajudá-lo. Herbert fica em Barra. Em seis meses, deve voltar para casa.

Às duas da tarde, a canoa sai.

Rio Negro acima, e depois pelo Uaupés, ele começa a ouvir falar de um lugar. A um mês de viagem da boca do rio ficava a cachoeira do Jurupari. Para a maioria dos comerciantes, era o fim do mundo conhecido.

Mas o que mais prende Wallace é um pássaro. Lá em cima, diziam os comerciantes e os índios, vivia uma ave-guarda-chuva branca. Wallace duvida que um pássaro desses exista. Mas não consegue sossegar sem ir ver.

Nas aldeias, ele ouve falar do dono do nome. Quando troveja, é o Jurupari com raiva. Quando alguém morre sem flecha e sem veneno, foi o Jurupari que matou. E no eclipse, quando a lua escurece, a aldeia inteira faz todo o barulho que pode, para espantar o Jurupari de cima dela.

Isso é dos Tucanos, dos Tarianas, dos Cobeus, os povos do Uaupés. A tradição é deles. Wallace era um estrangeiro de passagem, e pôs ao lado do nome a palavra que tinha à mão: Devil. O Diabo.

Ele ainda não sabe que só vai ter notícia do irmão um ano depois. E que a notícia vai chegar velha.

Ato 2 — 1851: a carta e a febre

Um ano depois, Wallace volta a Barra. Depois de tanto tempo nas aldeias de barro, as casas brancas parecem encantadoras.

As cartas estão esperando. São de mais de três meses antes, e vêm de Belém. O irmão pegou febre amarela. Quando a canoa que trouxe a carta partiu, os sintomas deixavam pouca esperança.

Depois disso, nada. O homem que escreveu a carta morreu, ele também: um navio com carga valiosa se perdeu na entrada de Belém, e a aflição lhe deu uma febre cerebral. Ninguém mais escreve.

Se Herbert tivesse sarado, teria escrito. Se tivesse morrido, algum dos ingleses de Belém teria mandado uma linha. Nenhuma linha chega.

Wallace fica no meio. E sobe o rio de novo.

Perto de Carvoeiro, a febre pega ele. Dor de cabeça, dor nas costas, dor nas pernas, febre violenta. Quinino três vezes por dia. Fica tão fraco que mal se mexe.

Por dois dias e duas noites, quase não se importa se a canoa afunda ou não.

Meio pensando, meio sonhando, acha que tudo vai acabar ali, no rio Negro. E pensa no destino escuro do irmão.

As amas de leite tinham um nome para o que vem nessas noites: pesadelo. E no Norte, os índios diziam que o Jurupari era isso.

Um ente que de noite cerra a garganta das crianças, ou mesmo dos homens, para trazer-lhes aflições e maus sonhos.

Wallace não conta o que sonhou naquelas noites. Conta só que não sabia se o irmão estava vivo.

Quando a febre cede, ele faz a si mesmo uma promessa: nunca mais viajar por lugares tão selvagens e vazios sem um companheiro.

Ato 3 — Os frades que nunca o viram

Mas a palavra que Wallace pôs ao lado do nome já vinha pronta. Tinha chegado quase dois séculos e meio antes dele, numa ilha do Maranhão, com um grupo de frades capuchinhos franceses.

Os índios contam aos frades que temem muito os maus espíritos. Os frades chamam esses espíritos de diabos. Os índios chamam de jeropary. E dizem que ele aparece para eles, visível, e os atormenta com crueldade.

Um dos frades, Claude d'Abbeville, guarda tudo. E no fim põe uma linha.

Mas nós nunca o vimos.

Mas tem um frade do mesmo grupo que diz que viu um: Ivo d'Evreux. E jura que era o próprio demônio.

Quase trezentos anos depois, um botânico da Amazônia leu a descrição e reconheceu o bicho. Era um pássaro da noite, inocente, que os índios conheciam por Uacurau. Um Caprimulgus.

Guarde esse pássaro. Ele está escrito numa cachoeira do Uaupés.

Desde os primeiros jesuítas, foi assim. Padre depois de padre dava ao espírito os atributos do demônio. Até que dois sábios do século dezessete fecharam a questão em latim.

Jurupari e anhangá significam simplesmente o diabo.

Simplesmente.

Só que quem ouviu os índios com mais calma achou outra coisa embaixo do nome. Couto de Magalhães nunca encontrou entre eles um espírito que fosse só mal, como o Satanás dos cristãos. Nem o Jurupari. Para ele, o Jurupari correspondia mais ou menos ao nosso demônio, sem ser tão perverso quanto ele.

E sobravam rastros de um mito mais antigo. Dizem que o Jurupari se transforma em bicho faminto. Que às vezes oferece fruta aos índios. Eles adormecem. E então são devorados.

Mas o que sobra, tirando a palavra dos padres, é uma coisa sem corpo, que vem de noite, quando a gente dorme, e aperta a garganta.

Ato 4 — 1852: cinquenta cachoeiras

Wallace passou quase três meses doente de sezão. Ainda anda com duas bengalas. Mal consegue entrar e sair da canoa. Mas acha que vai ficar tão bem no rio quanto preso em casa, e sobe. Nunca quis tanto voltar para casa.

Cinquenta cachoeiras. Umas são só corredeira, e a canoa sobe puxada por um cipó comprido no lugar da corda. Dezoito são ruins e perigosas. Doze são tão altas e furiosas que é preciso descarregar a canoa inteira.

Os nomes vêm em fila, na língua de lá. Cururu, o sapo. Murucututu, a coruja. E então a última grande cachoeira antes da do Jurupari. Uacorouá. Ao lado, Wallace põe a tradução em inglês: goatsucker.

É o nome inglês do Caprimulgus. O mesmo pássaro da noite que o padre Ivo jurou ser o demônio.

O último degrau antes da cachoeira do Diabo tem o nome do pássaro que um missionário confundiu com ele.

Wallace passa o Uacorouá com a canoa vazia, puxada por cima das pedras, debaixo de chuva. A carga fica amontoada nas pedras, coberta com esteiras e folhas de palmeira, até a chuva passar.

Chega a Mucura. Aluga metade de uma maloca do dono dela, por uma faca pequena e um espelho, e os homens do lugar vêm em peso ver o branco. Está, enfim, na terra da ave-guarda-chuva branca. Os caçadores trazem algumas aves-guarda-chuva, todas da espécie do rio Negro. Da branca, uns não sabem nada, outros dizem que aparece muito raramente. No máximo, conclui Wallace, é uma ave que nasceu sem cor.

E ali ele para.

Eu não podia pensar em subir mais uma semana só para ver a cachoeira do Jurupari.

Uma semana. Ele desce o rio sem ter visto.

Mas o que ele leva do Uaupés é outra coisa. Nas festas daqueles povos havia uma música que também levava o nome do Jurupari. Oito, às vezes doze trombetas, de bambu ou de tronco de palmeira oco. Cada par dá uma nota. Para o ouvido dele, um som agradável, parecido com clarinete e fagote.

Nenhuma mulher podia vê-las. As trombetas ficavam guardadas num igarapé, longe da maloca. Quando o som começava a chegar perto, toda mulher entrava no mato e ficava sem ser vista até a música ir embora.

Wallace deixou anotado mais coisa, sobre quem visse. Eu não vou repetir. Era um estrangeiro, de passagem, falando de fora de um segredo que não era dele. E este vídeo não vai mostrar as trombetas.

Na lista das coisas que ele junta no Uaupés, entre redes, bancos de madeira e flautas, o item vinte e nove é este.

Oito trombetas grandes. A música do Jurupari.

Nenhum item daquela lista chegou à Inglaterra.

Ato 5 — O fogo

Wallace desce para Belém.

A cidade é a mesma: o mercado sujo e descoberto, os carregadores cantando alto, as moças vendendo frutas e doces. E por toda parte, histórias de cura milagrosa da febre amarela, já no pior estágio. Um sarou tomando sorvete. Outro, com uma garrafa de vinho.

A resposta que ele esperava havia quase um ano vem ali. E ele não descreve o momento. Diz só, de passagem, que a doença tinha mandado o irmão, e tantos dos seus compatriotas, para covas em terra estrangeira.

Doze de julho. Ele embarca no brigue Helen, de duzentas e trinta e cinco toneladas, do capitão John Turner. Na carga, umas cento e vinte toneladas de borracha, e cacau, urucum, piaçaba e bálsamo de copaíba. E as caixas dele.

E então, seis de agosto. O café. O capitão na porta da cabine. A fumaça na proa, depois na escotilha de ré, cada vez mais densa. Tentam abrir um buraco no chão da cabine para jogar água no foco, que parece estar onde guardaram o bálsamo. A fumaça não deixa. Logo ninguém acredita mais que dá para apagar.

Wallace desce à cabine, quente e cheia de fumaça. Pega o relógio e uma caixinha de lata com umas camisas, dois cadernos velhos e alguns desenhos de plantas e bichos. Deixa para trás as roupas e uma pasta grande de desenhos. Sente uma espécie de apatia. Nenhuma vontade de salvar coisa nenhuma. Nem ele sabe explicar por quê.

Das escotilhas sobe agora uma fumaça amarela e grossa. E eles escutam, lá embaixo no porão, o bálsamo fervendo, como um caldeirão enorme.

Em menos de meia hora, o fogo atravessa o chão da cabine.

Todos vão para os botes. O capitão é o último a sair. Wallace desce por uma corda, pela popa, e esfola os dedos. A água salgada arde nas feridas enquanto ele ajuda a tirar a água do bote.

Os papagaios e os macacos que iam a bordo fogem para o gurupés, longe das chamas. Ninguém consegue chegar até eles. Quando o fogo pega a base do gurupés, alguns voltam correndo e pulam no meio do fogo. Só um papagaio se salva: cai na água, e eles o pescam.

A noite chega. Os botes ficam perto do navio, porque a luz pode chamar algum barco que passe. Wallace passa a noite tirando água e olhando o que o navio virou: uma fornalha de fogo líquido, balançando sem descanso no meio do oceano.

A terra mais perto, as Bermudas, fica a mais de setecentas milhas. São dez dias nos botes. Sede, sol, calmaria. No dia quinze, perto das cinco da tarde, aparece uma vela a cinco milhas. É o Jordeson, que vinha de Cuba para Londres, carregado de mogno.

Naquela noite, a bordo do Jordeson, Wallace não consegue dormir. E só agora, com o perigo passado, sente o tamanho da perda.

E agora tudo tinha ido embora, e eu não tinha um só exemplar para mostrar as terras desconhecidas por onde andei.

Encerramento

As oito trombetas que nenhuma mulher do Uaupés podia ver, ninguém mais viu.

Eu não sei se o Jurupari tem alguma coisa com aquele fogo. Mas isso Wallace não diz, e eu não vou dizer por ele. O fogo começou perto do bálsamo.

Mas lembre dos frades do Maranhão, que ouviram falar de um espírito que aparecia e atormentava, e deixaram escrito: nós nunca o vimos.

Wallace também nunca viu. Parou a uma semana da cachoeira do Jurupari. Levou a música dele até o meio do Atlântico. E chegou à Inglaterra sem o irmão, sem os cadernos, sem um só bicho para provar que esteve lá.

Um navio queimando no mar, à noite, e um homem num bote, olhando. A tradição continua sendo dos povos do Uaupés. Dela, os estrangeiros só levaram inteira para casa uma palavra: Diabo.

E na sua casa, a coisa que aperta a garganta de noite tinha nome? Conta aqui embaixo como chamavam, e de onde você é.

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