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Lenda da Caipora

Publicado em · texto produzido com IA sob direção e revisão humanas; os trechos entre aspas foram conferidos literalmente nas edições digitais citadas.

Resumo rápido

A Caipora (ou Caapora, Kaapora, caipóra) é o morador do mato do folclore brasileiro: dona da caça, montada num porco-do-mato, que castiga o caçador ganancioso e dá azar a quem a encontra. Daí vem a palavra "caiporismo". O nome é tupi e, segundo Pereira da Costa (1908), significa morador do mato. Nos livros antigos ela aparece com formas muito diferentes: anão com armas de seu tamanho (Gonçalves Dias, 1858, citado em 1890), mulher de um pé só ou criança de cabeça enorme (Beaurepaire-Rohan, citado em 1908), gigante peludo e tristonho (Simões Lopes Neto, 1913), caboclinho fumador e cachaceiro (Ceará, 1918). Muita gente diz que Caipora e Curupira são a mesma coisa; as fontes discordam entre si, e esta página mostra onde.

Ficha em 30 segundos

Outros nomes
Caapora e Kaapora (Barbosa Rodrigues, 1890; Simões Lopes Neto, 1913); caipóra e kaapóra (Pereira da Costa, 1908); Caipora, "vulgarmente", já em Gonçalves Dias (1858); no Ceará de 1918, Caipora é o nome que se dá ao próprio Saci.
Onde é contado
Amazônia (Barbosa Rodrigues, 1890), Pernambuco e Ceará (Pereira da Costa, 1908; depoimento de 1918), Rio Grande do Sul (Simões Lopes Neto, 1913) e o conto de bicho recolhido por Sílvio Romero (1897).
Menção escrita mais antiga que conferimos
o dicionário tupi de Gonçalves Dias (Leipzig, 1858), reproduzido por Barbosa Rodrigues em 1890. Em 1908, Pereira da Costa cita o dicionário de Moraes chamando "caipora" o fogo-fátuo das matas.
Traços que as fontes repetem
mora no mato, protege a caça, anda montada (anta, caititu, porco-espinho), e encontrá-la traz azar.
O que não tem documento
uma forma única. Cada autor descreve um corpo diferente, e dois deles dizem o contrário um do outro sobre a relação com o Curupira.

Guia da lenda (esta página)Guia da lendaVídeo

A lenda, contada de novo

O caçador saiu antes do dia, com a espingarda e sem fumo. Estava avisado: no sertão do Ceará, ninguém entra na capoeira sem levar um pedaço de fumo e um gole de pinga para o dono dela. Riu do aviso. No meio da manhã, numa encruzilhada de picadas, ouviu o tropel de uma vara de caititus e, no lombo do maior deles, viu um caboclinho de carapuça vermelha e cachimbo no queixo, que lhe estendeu a mão pedindo fumo.

O caçador não tinha. O caboclinho não perdoou: desceu do porco e surrou o homem até deixá-lo moído, sem que ninguém mais visse quem batia. Depois assobiou, e a mata inteira se esvaziou. Naquele dia o caçador não achou um rastro, nem no outro, nem no outro. Tropeçava nas raízes, espinhava-se nas roçadas, perdia as coisas pelo caminho. Em casa, o cachorro adoeceu, o gado pegou bicheira. Os vizinhos balançaram a cabeça: caiporismo.

No ano seguinte voltou à mesma encruzilhada com um rolo de fumo bom e uma garrafa. Deixou tudo no chão e esperou. O silvo veio agudo, e atrás dele os bichos, mansos, oferecidos. O caçador escolheu só o que precisava e foi embora sem olhar para trás. É assim que o povo do Nordeste contava, em 1918, e é assim que o Sul contava também, com outra cara: um gigante peludo e muito triste, comandando as varas de porcos do mato.

O que dizem as fontes

Gonçalves Dias (1858), citado por Barbosa Rodrigues em Poranduba Amazonense (1890)

Barbosa Rodrigues, botânico que percorreu o rio Negro, dedica páginas ao Curupira e discute a opinião de Gonçalves Dias, que no Diccionario da lingua tupy (Leipzig, 1858) chamava o Curupira também de Caapora. Ele reproduz a descrição do poeta:

O Caapora (vulgarmente caipora) veste as feições de um indio, anão de estatura, com armas proporcionadas ao seu tamanho, habita o tronco das arvores carcominadas para attrahir os meninos que apanha desgarrados nas florestas.

— Poranduba Amazonense, João Barbosa Rodrigues (1890), p. 7, linhas 1745 a 1748 do texto digitalizado, citando Gonçalves Dias (1858) · ler no acervo

Os vagalumes são os seus batedores

— Poranduba Amazonense, João Barbosa Rodrigues (1890), p. 7, linha 1751 do texto digitalizado, citando Gonçalves Dias (1858) · ler no acervo

O trecho de Gonçalves Dias segue dizendo que ela ora anda sobre uma anta, ora governa uma vara de caititus montada no maior deles, e que o indígena que a avistasse era malsucedido em tudo. Sobre a ideia de que Caapora e Curupira seriam o mesmo "gênio dos pensamentos", Barbosa Rodrigues é seco:

Nenhuma lenda confirma essa opinião.

— Poranduba Amazonense, João Barbosa Rodrigues (1890), p. 7, linha 1741 do texto digitalizado · ler no acervo

De quem é a história e quem anotou: a descrição é de Gonçalves Dias, poeta maranhense, num dicionário de 1858; Barbosa Rodrigues a copia para discordar dela, com base nas lendas que ele mesmo recolheu no Amazonas.

F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano (1908)

O historiador pernambucano trata a Caipora como a forma popular do Curupira dos cronistas, e cita o Visconde de Beaurepaire-Rohan para a variedade de corpos:

é a mesma que apparece com o nome de caipóra, mais commum e vulgarmente conhecida

— Folk-lore pernambucano, F. A. Pereira da Costa (1908), linhas 947 a 950 do texto digitalizado

ora como uma mulher unipede que anda aos saltos, ora como uma criança, de cabeça enorme, ora como um caboclinho encantado

— Folk-lore pernambucano, F. A. Pereira da Costa (1908), linhas 951 a 953 do texto digitalizado, citando Beaurepaire-Rohan

Ele registra uma trova do Ceará:

Um medonho caboquinho, Com um cachimbo no queixo, Montado num porco-espinho.

— Folk-lore pernambucano, F. A. Pereira da Costa (1908), linhas 962 a 965 do texto digitalizado, trova popular do Ceará

E explica o nome:

da sua habitação nas florestas que vem o seu nome de kaapóra ou caipóra, termo da lingua tupy que significa morador

— Folk-lore pernambucano, F. A. Pereira da Costa (1908), linhas 970 a 972 do texto digitalizado

Pereira da Costa copia ainda um trecho de Barbosa Rodrigues (da revista Vellosia) sobre Pernambuco, onde o Curupira reaparece como sinônimo de Caipora, em alguns lugares com um pé só e redondo, a cavalo num veado:

é o protector da caça, cuja destruição evita, mas nessa província, nem sempre torna infeliz aquelles que o encontram.

— Folk-lore pernambucano, F. A. Pereira da Costa (1908), linhas 984 a 986 do texto digitalizado, citando Barbosa Rodrigues

Segue um caso contado como fato: um homem levava mingau toda noite a uma Caipora; um dia a mulher dele pôs pimenta no mingau, e a Caipora deu uma surra no homem e nunca mais o protegeu. Pereira da Costa anota também que, no auto do Bumba meu boi, entra um menino de "caiporinha" com uma peneira de mais de dois palmos como cabeça.

João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul (1913)

No fim do livro gaúcho há verbetes curtos de lendas "do centro e norte do Brasil". O Caapora e o Curupira são dois verbetes separados, um atrás do outro:

É um espírito com forma de homem, gigante, peludo e muito tristonho, que comanda as varas de porcos do mato e anda sempre montado sobre um deles.

— Lendas do Sul, João Simões Lopes Neto (1913), O Caapora, linhas 3309 a 3311 do texto digitalizado · ler no acervo

Quem topar com o Caapora daí em diante arrastará consigo a infelicidade (caiporismo), para todo o resto da sua vida

— Lendas do Sul, João Simões Lopes Neto (1913), O Caapora, linhas 3313 a 3314 do texto digitalizado · ler no acervo

No entanto o Caapora protege a caça bravia dos matos.

— Lendas do Sul, João Simões Lopes Neto (1913), O Caapora, linhas 3321 a 3322 do texto digitalizado · ler no acervo

O Curupira, no verbete seguinte, é outra coisa:

O Curupira é como um tapuio pequeno; tem os dentes verdes e os pés colocados às avessas.

— Lendas do Sul, João Simões Lopes Neto (1913), O Curupira, linhas 3335 a 3336 do texto digitalizado · ler no acervo

O depoimento do Ceará no livro de 1918

No inquérito sobre o Saci que Monteiro Lobato reuniu em livro em 1918, um leitor assinando "Zé Caipora" conta como a figura era contada no sertão do Ceará, onde ele passou a infância. Lá o próprio Saci se chamava Caipora:

não se lhe dá absolutamente este nome, mas o de Caipora

— O Sacy-Perêrê, Monteiro Lobato (org.) (1918), depoimento de Zé Caipora, linhas 10838 a 10839 do texto digitalizado · ler no acervo

Do Caipora, nunca ouvi dizer que tenha uma perna só

— O Sacy-Perêrê, Monteiro Lobato (org.) (1918), depoimento de Zé Caipora, linha 10841 do texto digitalizado · ler no acervo

O Sacy é um peralta; o Caipora é um pouco mais do que isto: faz mais diabruras do que traquinadas

— O Sacy-Perêrê, Monteiro Lobato (org.) (1918), depoimento de Zé Caipora, linhas 10851 a 10852 do texto digitalizado · ler no acervo

"Fuma como um Caipora" é um ditado corrente.

— O Sacy-Perêrê, Monteiro Lobato (org.) (1918), depoimento de Zé Caipora, linhas 10856 a 10857 do texto digitalizado · ler no acervo

Ele conta que a Caipora fica nas encruzilhadas montada num caititu enorme, pede fumo ao tropeiro, surra quem não dá, e que nenhum caçador sai sem fumo e pinga para ela; paga o tributo, ela assobia e chama a caça. O depoimento é de um leitor anônimo, com pseudônimo, e vale como registro de 1918 do que se contava no Ceará, não como estudo.

Sílvio Romero, Contos populares do Brazil (1897)

Entre os contos de bicho recolhidos da tradição oral está "O jaboty e o caipora": o caipora desafia o jabuti para um cabo de guerra, o jabuti amarra a corda no rabo de uma baleia e o caipora, puxando, se cansa e reconhece que o jabuti é mais valente. A digitalização desse trecho é ruim e não permite citação literal; o resumo segue o texto.

Versões lado a lado

VersãoRegistroComo éO que faz
Caapora de Gonçalves DiasDicionário tupi, 1858, citado em 1890Anão com feições de indígena, armas do seu tamanho; mora em troncos ocosAtrai meninos perdidos; anda em anta ou governa caititus; os vagalumes são seus batedores; dá azar a quem a vê
Caipora do NordesteBeaurepaire-Rohan, citado por Pereira da Costa, 1908Mulher de um pé só, criança de cabeça enorme ou caboclinho encantadoSai à noite das matas ermas; encontrá-la de frente estraga o dia e os seguintes
Caipora de PernambucoBarbosa Rodrigues, citado em 1908Caboclo pequeno, coberto de cabelos, às vezes um pé só e redondo, a cavalo num veadoProtege a caça; surra os cães do caçador sovina; nem sempre dá azar
Caapora do SulSimões Lopes Neto, 1913Gigante peludo e muito tristonho, montado num porco-do-matoDá "caiporismo" para o resto da vida; protege a caça bravia
Caipora do CearáDepoimento de 1918Caboclinho de carapuça vermelha, fumador e cachaceiro, num caitituPede fumo nas encruzilhadas; surra quem nega; paga o tributo, chama a caça
Caipora do conto do jabutiSílvio Romero, 1897Um bicho forte, sem descriçãoPerde o cabo de guerra para o jabuti

Caipora e Curupira: a mesma coisa?

Depende de quem anotou. Gonçalves Dias (1858) e Pereira da Costa (1908) tratam os dois como um só ser com dois nomes. Barbosa Rodrigues (1890) responde que nenhuma lenda confirma isso, e Simões Lopes Neto (1913) dá a cada um seu verbete: o Caapora é gigante, peludo e triste; o Curupira é pequeno, de dentes verdes e pés virados para trás. O que se repete nas duas figuras é a função: dono do mato e da caça. O que separa é o corpo e o castigo: o Curupira faz perder o caminho; a Caipora dá azar e surra. Para a figura dos pés virados, veja a lenda do Curupira.

Tradição oral e documento

O que está documentado: a palavra, num dicionário de 1858; a discussão sobre a identidade com o Curupira, em 1890; as formas nordestinas, a trova do Ceará e o sentido do nome, em 1908; o verbete gaúcho, em 1913; e o costume do fumo e da pinga, em 1918. O que não tem documento: uma origem única, um corpo único e a data em que "caipora" passou a significar pessoa azarada; em 1908 esse uso já aparece no dicionário citado por Pereira da Costa, e em 1913 Simões Lopes Neto já escreve "caiporismo". Nenhuma das fontes é testemunho de um encontro; são registros do que se contava.

O filme

O canal ainda não tem episódio sobre a Caipora. A figura aparece de passagem no episódio do Curupira, cuja página de vídeo está em Lenda do Curupira. Quando houver filme da Caipora, a ficha com capítulos e fontes entra aqui.

Perguntas frequentes

O que é a Caipora? Um ser do mato do folclore brasileiro, dono da caça, que anda montado num porco-do-mato e castiga o caçador ganancioso. O nome é tupi e, segundo Pereira da Costa (1908), significa morador do mato.

Caipora e Curupira são a mesma coisa? Alguns autores antigos dizem que sim (Gonçalves Dias, 1858; Pereira da Costa, 1908). Barbosa Rodrigues (1890) diz que nenhuma lenda confirma isso, e Simões Lopes Neto (1913) descreve os dois separados: o Caapora gigante e peludo, o Curupira pequeno e de pés virados.

Como é a Caipora? Depende da região e do autor: anão com armas do seu tamanho (1858), mulher de um pé só ou criança de cabeça enorme (citado em 1908), caboclinho de cachimbo montado num porco-espinho (trova do Ceará, 1908), gigante peludo e tristonho (1913), caboclinho de carapuça vermelha num caititu (Ceará, 1918).

A Caipora é homem ou mulher? As fontes usam os dois gêneros. Barbosa Rodrigues e Simões Lopes Neto escrevem "o Caapora"; Pereira da Costa escreve "a caipóra" e registra a forma de mulher de um pé só.

Por que a Caipora pede fumo? No depoimento do Ceará de 1918, ela é fumadora e cachaceira, fica nas encruzilhadas montada num caititu e pede fumo a quem passa; quem nega apanha, quem paga o tributo ganha caça.

O que significa caiporismo? Azar persistente. Simões Lopes Neto (1913) explica: quem topa com o Caapora "arrastará consigo a infelicidade (caiporismo)" pelo resto da vida.

Qual é o registro escrito mais antigo da Caipora? O mais antigo que conferimos é o dicionário tupi de Gonçalves Dias, de 1858, reproduzido por Barbosa Rodrigues em 1890. Em 1908, Pereira da Costa cita o dicionário de Moraes, mais antigo, usando "caipora" para o fogo-fátuo das matas, mas não conferimos esse dicionário.

A Caipora existe? As fontes tratam como crença e lenda. Os trechos conferidos descrevem o que se contava, não um caso comprovado.

Para a sala de aula

Dê à turma as cinco descrições da tabela, sem o nome do autor, e peça que desenhem a Caipora de cada uma. Depois revele quem anotou, onde e em que ano. A pergunta final: por que uma mesma palavra descreve corpos tão diferentes? Mais materiais em Professores.

Estante

Os livros desta página, com o critério de cada um. Quatro têm edição digital gratuita; o de Pereira da Costa foi lido numa digitalização de biblioteca.

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Citar esta página

ÁGUAS PROFUNDAS. Lenda da Caipora: origem, versões e fontes. [S. l.], 26 out. 2026. Disponível em: <https://aguasprofundasamazonia.com.br/lendas/caipora/>. Acesso em: [data do acesso].

Endereço permanente: https://aguasprofundasamazonia.com.br/lendas/caipora/

Histórico de revisões
  • — Primeira publicação, no padrão de guia completo por criatura.

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Fontes

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