Lenda da Matinta Perera
Publicado em · texto produzido com IA sob direção e revisão humanas; os trechos entre aspas foram conferidos literalmente nas edições digitais citadas.
Resumo rápido
A Matinta Perera é a figura da noite amazônica que se anuncia por um assobio e cobra fumo de quem passa. Na tradição oral do Pará ela é uma velha; nos livros do século dezenove, é outra coisa. Herbert Smith, em 1879, anotou em Santarém uma matinta-pere quase sempre invisível, que toma a forma de um velho e ronda os engenhos de açúcar atrás de doce. João Barbosa Rodrigues, em 1890, escreveu que o Maty-taperê do Norte é o mesmo Saci do Sul, o filho do Curupira, e que a velha de andrajos que assobia é a mãe que anda com ele. O nome "Matinta Pereira", diz ele, foi o jeito de o civilizado aportuguesar uma palavra da língua geral.
Ficha em 30 segundos
- Outros nomes
- matinta-pere e Taii-taii de Ererê (Smith, 1879); Maty-taperê, Matim-taperê e Matinta Pereira (Barbosa Rodrigues, 1890, que a liga ao Çacy-taperê do Sul); Matinta Perera e Matinta Pereira, hoje.
- Onde é contado
- Pará e Amazonas, nos caminhos, roças e engenhos; Santarém e Belém (1879); Maranhão, onde a velha que a acompanha se chama Caapora (1890).
- Menção escrita mais antiga que conferimos
- Herbert H. Smith, Brazil, the Amazons and the Coast, 1879, pp. 566 e 567, com um caso datado de logo depois de 1835.
- Traços que as fontes repetem
- canto ou assobio na noite, forma que muda (velho, velha, pássaro), e um pedido: doce em 1879, fumo em 1890.
- O que não tem documento
- a origem como "índia traída" e os casos com nome e data que circulam hoje. Nada disso está nos livros que lemos.
Guia da lenda (esta página)VídeoTranscrição e fontes
A lenda, contada de novo
Um velho volta para casa de noite, pelo baixo Amazonas, e o caminho passa por um engenho pequeno, desses de moer cana com um cavalo. Está tudo escuro. De trás de um toco, uma voz pergunta por ele: cadê o teu melado? O velho olha. Não há ninguém, só o farfalhar de asas e, mais longe, o canto repetido que dá nome ao bicho: matinta-perê, matinta-perê.
Anos antes, em Belém, uma patrulha ouviu alguém cantar na rua, de madrugada. Seguiu a voz até uma laranjeira e encontrou lá em cima uma velha, que não soube responder a nenhuma pergunta. Levaram-na ao corpo da guarda e trancaram bem a porta. De manhã, a cela estava vazia. Quem contou as duas histórias a um naturalista americano foram indígenas de Santarém; para eles, as duas eram a mesma coisa.
Mais ao sul, em toda casa de beira de estrada, o assobio na calada da noite faz as crianças se juntarem no colo das mães. Os velhos esconjuram, os pais tremem, mas ninguém nega o fumo: espalham-no pelas cercas e pelas portas para que o assobio se cale e vá embora, levando com que encher o cachimbo.
O que dizem as fontes
Herbert H. Smith, Brazil, the Amazons and the Coast (1879)
O naturalista americano morou em Santarém e reuniu num capítulo os mitos que ouviu dos indígenas. Sobre a matinta-pere, começa admitindo o pouco que sabe:
I can learn very little about this mythical being, which seems to be rather a phantom than a definite form.
Em português: pouco pude saber desse ser mítico, que parece antes um fantasma do que uma forma definida. Ele segue:
At other times it assumes the shape of an old man, of a priest, or any other person or thing. When it is frightened by shouting, it disappears in the air, with rustling of wings. The story goes that it is fond of sweets, and is often heard at night about the little Indian sugar-mills.
Em português: outras vezes toma a forma de um velho, de um padre ou de qualquer outra pessoa ou coisa; quando a assustam com gritos, some no ar, com um farfalhar de asas; dizem que gosta de doce e é ouvida de noite perto dos pequenos engenhos de açúcar dos indígenas. Smith acha que essas histórias vêm das grandes mariposas que voam em volta dos engenhos, e conclui:
The matinta-pere is perfectly harmless. Sometimes it calls to a passer-by.
Another Indian told me that a matinta-pere was seen in the streets of Para, soon after the rebellion of 1835.
they found an old mulatto woman in an orange-tree ; as she could not answer their questions, they took her to the guard-house, and there she was locked in securely ; but in the morning she was gone.
Em português: a matinta-pere é perfeitamente inofensiva; às vezes chama quem passa. Outro indígena contou que uma foi vista nas ruas do Pará, logo depois da revolta de 1835: a patrulha achou uma velha mulata numa laranjeira, e, como ela não respondia, levou-a ao corpo da guarda e a trancou bem; de manhã, tinha sumido. Smith ainda anota que o Taii-taii de Ererê parece ser só outro nome da matinta-pere, visto como morcego, cobra ou pássaro, nunca perigoso, e manda comparar com o Urutau citado por Couto de Magalhães. De quem é a história: dos indígenas de Santarém que falaram com ele. Quem anotou foi Smith, que morreu em 1919.
João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (1890)
Na introdução do livro, Barbosa Rodrigues trata do Curupira, do Caapora e do filho deles, que muda de nome conforme a região, e explica o nome do Norte:
Como vimos, o Maty-taperè é o mesmo Çacy-saperê do Sul.
Çacy-taperê, quer dizer a mãe das almas que sahe nos caminhos ou nas estradas.
Ele escreve que o civilizado, sem entender a pronúncia do sertanejo, foi alterando o nome até lhe dar um sobrenome português, Matinta Pereira, e descreve o que se vê e o que se ouve no Pará e no Amazonas: um menino de uma perna só e cabelos vermelhos, sempre acompanhado de uma velha vestida de andrajos, que assobia pela calada da noite e mesmo de dia. Sobre quem é a Matinta, ele toma partido:
o que é mais correcto no valle Amazonico é que esse pássaro phantastico seja a metamorphose do filho do Korupira
No Maranhão, o Maty-taperê anda também acompanhado pela velha, a que dâo o nome de Kaapora.
E registra o fumo, que em 1879 ainda era doce:
mas não negam o fumo, que espalham pelas cercas dos quintaes e pelas portas para que o Çacy se cale, e se retire, levando com que matar o vicio de cachimbar.
Por fim, cita o canto que José Veríssimo, do Pará, dizia ser resto de algum mito:
Matinta Pereira Papa terra já morreu Quem te governa sou eu.
Observo aqui que Papa terra, é no Pará um passarinho preto de crista comprida, do qual nâo ouvi lenda alguma.
De quem é a história: do povo dos caminhos do Pará, do Amazonas e do Maranhão, e de José Veríssimo, que ouviu o canto. Quem anotou e interpretou foi Barbosa Rodrigues, botânico que viveu no Amazonas entre 1872 e 1887 e morreu em 1909. A ligação com o Saci é a interpretação dele, não um fato.
Couto de Magalhães, O Selvagem (1876): a ausência
Couto recolheu dezenas de lendas tupi no Pará e não anotou a Matinta nenhuma vez. Na lista dos seres submetidos à lua ele põe o Saci Cererê, o Boitatá, o Curupira e o Urutau, a ave da noite, que é o nome que Smith lembra ao falar da matinta-pere. A ausência num livro de 1876 e a presença em outro de 1879 ajudam a datar quando a lenda entrou no papel, não quando nasceu.
Versões lado a lado
| Versão | Registro | O que é a Matinta | O que pede ou faz |
|---|---|---|---|
| Matinta-pere dos engenhos | Smith, 1879 (Santarém) | Fantasma invisível, às vezes velho ou padre, que some com farfalhar de asas | Gosta de doce; pergunta pelo melado de quem passa; inofensiva |
| A velha da laranjeira | Smith, 1879 (Belém, depois de 1835) | Velha que canta de madrugada | Presa pela patrulha, some da cela trancada |
| Taii-taii de Ererê | Smith, 1879 | Morcego, cobra ou pássaro num buritizal | Nunca perigosa |
| Maty-taperê | Barbosa Rodrigues, 1890 (Pará e Amazonas) | Pássaro fantástico, metamorfose do filho do Curupira, com a velha de andrajos ao lado | Assobia de noite e de dia; o povo espalha fumo nas cercas para que se cale |
| A velha Caapora | Barbosa Rodrigues, 1890 (Maranhão) | A velha que acompanha o Maty-taperê | Tem asas e vive pelas roças e estradas |
| A velha que cobra fumo | Tradição oral do Pará, hoje | Velha que assobia nas trilhas | Cobra fumo; quem não paga, dizem, paga de outro jeito |
Tradição oral e documento
O que está documentado: em 1879, uma presença sem forma fixa que pede doce e some; em 1890, um pássaro que é o Saci do Norte, uma velha que assobia ao lado dele e o fumo deixado nas cercas. O que não tem documento: a Matinta como mulher que vira pássaro à noite e volta de dia, a promessa que se cumpre no sétimo dia, a origem como índia traída. Essas versões vivem na tradição oral do Pará, e é assim que as contamos. Note a mudança: o doce de 1879 virou fumo em 1890, e o menino de uma perna só saiu de cena, deixando a velha sozinha com o assobio.
O filme
O canal publicou um longo sobre ela, Matinta Pereira: a velha que assobia e cobra fumo, que acompanha o que se conta nas comunidades do Pará e termina na ausência de 1876. Esta página acrescenta o que o filme não leu: os registros de 1879 e 1890, com as páginas.
Perguntas frequentes
O que é a Matinta Perera? Uma figura da noite amazônica que se anuncia por um assobio ou canto e pede alguma coisa a quem passa. Hoje, no Pará, é uma velha que cobra fumo; em 1879 era um fantasma dos engenhos que pedia doce; em 1890, um pássaro que Barbosa Rodrigues chamou de Saci do Norte.
Qual é a origem da Matinta Perera? A tradição oral do Pará e do Amazonas. O registro escrito mais antigo que conferimos é de Herbert Smith, em 1879, com um caso de Belém de logo depois de 1835. Barbosa Rodrigues, em 1890, explicou o nome pela língua geral: Maty-taperê, corruptela de Çacy-taperê, "a mãe das almas que sai nos caminhos".
Por que a Matinta cobra fumo? Nenhum dos livros explica. Em 1890, Barbosa Rodrigues anota o costume de espalhar fumo pelas cercas e portas para que o Saci se cale e vá embora, com o que encher o cachimbo. Em 1879, o que ela pedia era doce.
Matinta Perera ou Matinta Pereira? As duas formas correm hoje. Smith escreveu matinta-pere; Barbosa Rodrigues, Maty-taperê e Matim-taperê, e diz que "Matinta Pereira" foi o aportuguesamento feito por quem não entendia a pronúncia do sertanejo.
A Matinta Perera é o Saci? Para Barbosa Rodrigues (1890), sim: o Maty-taperê do Norte seria o mesmo Çacy do Sul, filho do Curupira, acompanhado da mãe, uma velha de andrajos. É a interpretação dele. Smith (1879) a descreve sem ligação com o Saci.
A Matinta Perera é perigosa? Depende de quem conta. Para Smith, em 1879, era perfeitamente inofensiva, e o Taii-taii de Ererê nunca era perigoso. Na tradição oral de hoje, quem não paga o fumo é castigado.
Ela vira pássaro? Em 1890, Barbosa Rodrigues diz que o Maty-taperê vive quase sempre transformado em pássaro, que se denuncia pelo canto e nunca se vê. A versão em que uma mulher da comunidade vira pássaro à noite não está nos livros que lemos.
Para a sala de aula
Em 1879 ela pedia melado; em 1890, o povo lhe deixava fumo. O que mudou em onze anos, e o que isso diz sobre quem contava a história? Peça aos alunos que comparem a Matinta de Santarém, a velha da laranjeira de Belém e a velha de andrajos que anda com o menino de uma perna só, e que digam quem anotou cada uma. Mais materiais em Professores.
Estante
Os livros desta página, com o critério de cada um. Os três têm edição digital gratuita.
- Poranduba Amazonense — João Barbosa Rodrigues (1890) · ler grátis (domínio público)
A introdução explica o nome Maty-taperê, diz que ele é o mesmo Saci do Sul, descreve a velha de andrajos que assobia e registra o canto que José Veríssimo ouviu no Pará. - Brazil, the Amazons and the Coast — Herbert H. Smith (1879) · ler grátis (domínio público)
O registro mais antigo que conferimos: a matinta-pere invisível dos engenhos, a pergunta sobre o melado e a velha presa numa laranjeira em Belém, depois de 1835. Está em inglês. - O Selvagem — Couto de Magalhães (1876) · ler grátis (domínio público) Comprar no Mercado Livre ↗
Serve de contraprova: nas dezenas de lendas tupi que Couto recolheu no Pará, a Matinta não aparece. Ele lista o Urutau, a ave da noite, entre os seres ligados à lua.
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ÁGUAS PROFUNDAS. Lenda da Matinta Perera: origem, versões e fontes. [S. l.], 26 out. 2026. Disponível em: <https://aguasprofundasamazonia.com.br/lendas/matinta-perera/>. Acesso em: [data do acesso].
Endereço permanente: https://aguasprofundasamazonia.com.br/lendas/matinta-perera/
Histórico de revisões
- — Primeira publicação, no padrão de guia completo por criatura.
Leia também
- Lenda do Saci-Pererê: o irmão do Sul, segundo Barbosa Rodrigues.
- Lenda do Curupira: o pai, na mesma introdução de 1890.
- Lenda da Iara: outra voz que chama na beira do rio.
- Todas as lendas, com as fontes
- Como escolhemos as fontes
Fontes
- Herbert H. Smith, Brazil, the Amazons and the Coast (Nova York, 1879), "Myths of the Amazonian Indians", pp. 566 e 567: edição digital. Traduções nossas.
- João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (Rio de Janeiro, 1890), introdução, pp. 12 a 14 e 18 a 19: edição digital.
- Couto de Magalhães, O Selvagem (Rio de Janeiro, 1876), "Família e religião selvagem": edição digital. Usado como contraprova da ausência.