Lenda do Negrinho do Pastoreio
Publicado em · texto produzido com IA sob direção e revisão humanas; os trechos entre aspas foram conferidos literalmente nas edições digitais citadas.
Resumo rápido
O Negrinho do Pastoreio é a lenda gaúcha de um menino escravizado, sem nome e sem padrinho, que perde a tropilha do senhor, apanha, é jogado num formigueiro e aparece de novo, inteiro, ao lado da Virgem, que ele chamava de madrinha. Desde então ele acha o que se perde nos campos para quem lhe acende uma vela. O texto que todo mundo conhece é o de João Simões Lopes Neto, publicado em jornal em 1906 e no livro Lendas do Sul, em 1913. A nota mais antiga que conferimos é de 1890: João Barbosa Rodrigues já registrava o nome no Rio Grande do Sul e em São Paulo, como uma forma do Saci.
Ficha em 30 segundos
- Outros nomes
- Negrinho do pastoreio (Simões Lopes Neto, 1913; Barbosa Rodrigues, 1890); em São Paulo, segundo Barbosa Rodrigues, o Saci "perdendo o nome" toma o de Negrinho do pastoreio.
- Onde é contado
- os campos do Rio Grande do Sul (Simões Lopes Neto escreveu em Pelotas); Barbosa Rodrigues ouviu o nome também em São Paulo (Itu, Campinas).
- Menção escrita mais antiga que conferimos
- Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense, 1890, numa nota sobre o Saci.
- Traços que as fontes repetem
- um menino negro a cavalo, uma tropilha, velas acesas em troca de ajuda para achar o que se perdeu.
- O que não tem documento
- um registro da lenda anterior a 1890 e o nome de quem a contou a Simões Lopes Neto. O próprio Barbosa Rodrigues diz que não leu a versão de Apolinário Porto Alegre, que ele cita de ouvir falar.
Guia da lenda (esta página)Guia da lendaGuia da lenda
A lenda, contada de novo
Era o tempo dos campos sem cerca. Um estancieiro muito rico e muito mau só olhava nos olhos de três criaturas: o filho, um cavalo baio e um menino escravizado, preto como carvão, que todos chamavam só de Negrinho. Ninguém lhe deu padrinho nem nome, e por isso ele se dizia afilhado da Virgem, a madrinha de quem não tem.
O estancieiro apostou mil onças de ouro numa carreira contra um vizinho. O vizinho queria a parada para os pobres; o estancieiro, não. O Negrinho montou o baio. Os dois cavalos correram emparelhados até a última quadra, e a duas braças da raia o baio parou de repente e virou. O mouro ganhou, e o ganhador repartiu tudo com o pobrerio.
De volta à casa, o estancieiro mandou amarrar o Negrinho a um palanque e dar-lhe uma surra de relho. Na madrugada, levou o menino ao alto da coxilha e sentenciou: trinta quadras tinha a cancha, trinta dias ele ficaria ali pastoreando a tropilha de tordilhos negros. Veio o sol, o vento, a chuva, a noite. As corujas fizeram roda sobre o menino. Ele pensou na madrinha e dormiu; os guaraxains cortaram a soga, o baio disparou e a tropilha com ele. O Negrinho perdeu o pastoreio, e chorou.
Nova surra. Mandado campear à noite, o menino foi ao oratório, tomou o coto de vela aceso diante da imagem e saiu para o campo. Cada pingo de cera benta que caía no chão virava uma luz nova, e com o campo claro ele achou a tropilha. Mas o filho do estancieiro, de manhã, enxotou os cavalos. Terceira surra, agora até o menino não bulir mais. Para não gastar a enxada numa cova, o senhor mandou jogar o corpo na panela de um formigueiro.
Três dias de cerração. No quarto, o estancieiro foi ver o que restava. Na boca do formigueiro estava o Negrinho de pé, com a pele lisa, sacudindo as formigas, e ao lado o baio, a tropilha inteira e a Virgem, Nossa Senhora, de guarda ao menino. O senhor caiu de joelhos. O Negrinho montou sem rédeas e tocou a tropilha a galope. Desde então, quem perde alguma coisa nos campos acende uma vela para ele e vai dizendo: foi por aí que eu perdi. Ele acha, e leva a luz da vela para o altar da madrinha.
O que dizem as fontes
João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul (1913)
O livro saiu em Pelotas. A lenda já tinha sido publicada em jornal: a carta de Coelho Neto que abre o capítulo, datada de 1º de janeiro de 1907, agradece a dedicatória da lenda "publicada no Correio Mercantil de 26 de dezembro". Coelho Neto elogia justamente o que o autor não fez: corrigir a fábula e tirar dela o "sabor suave" de origem.
Lendo-a tive a impressão de estar ouvindo contada, em tom lento, por uma dessas velhinhas que são as conservadoras de muito primor da Poesia popular
O texto da lenda começa pelo menino sem nome:
A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora nossa, que é a madrinha de quem não a tem.
A pena do estancieiro é dita com a aritmética da carreira:
Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de tordilhos negros...
O milagre da vela, que explica o costume que a lenda ensina:
a vela benta ia pingando cera benta no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavam a terra e as manadas chucras não disparavam...
Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.
O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela
De quem é a história e quem anotou: a lenda é do povo pastoril do Rio Grande do Sul; Simões Lopes Neto a escreveu em Pelotas e a dedicou a Coelho Neto. Ele não nomeia quem lhe contou. É texto literário, com a tradição por baixo, e é assim que a carta de 1907 o descreve.
João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (1890)
Vinte e três anos antes do livro gaúcho, o botânico Barbosa Rodrigues, escrevendo sobre o Saci do Pará, anotou que o nome mudava conforme a província. Em São Paulo (Itu, Campinas), o Saci perdia o nome e virava Negrinho do pastoreio; para ele não se dava fumo, e sim velas, acesas pelos campos, estradas e quintais quando se queria proteção. Ali, diz o autor, em vez de trazer má sorte ele era "antes milagroso".
É crença que as velas que a elle se accendem não se gastam, porque com o seu barrete vermelho as apaga para leval-as para seu uso.
No Rio Grande do Sul, o nome já era o de hoje:
é com o nome modificado em Negrinho do pastoreio, é então um Gavroche
d'ahi lhe veio o nome de « Negrinho do pastoreio », que significa o que vive nos pastos, e não o que apascenta ou leva os animaes ao pasto
Numa nota de rodapé, ele diz que Apolinário Porto Alegre escreveu a lenda do Saci do Rio Grande do Sul com o título Negrinho do Pastoreio, e que ainda não tinha tido ocasião de ler. Ou seja: em 1890 já havia uma versão escrita gaúcha, anterior à de Simões Lopes Neto, que não conferimos.
Versões lado a lado
| Versão | Registro | Quem é o Negrinho | O que se faz |
|---|---|---|---|
| Saci de São Paulo | Barbosa Rodrigues, 1890 | O Saci com outro nome, em Itu e Campinas; "antes milagroso" | Acendem-lhe velas pelos campos e quintais para pedir proteção; as velas não se gastam |
| Negrinho do Rio Grande | Barbosa Rodrigues, 1890 | Um "Gavroche" que ninguém teme; nome que significa o que vive nos pastos | Persegue às vezes os gaúchos nas coxilhas, montado em baguais sem arreio |
| Negrinho do Pastoreio | Simões Lopes Neto, 1906 (jornal) e 1913 (livro) | Menino escravizado, sem nome, afilhado da Virgem, morto num formigueiro e aparecido de novo | Acende-se uma vela e diz-se "foi por aí que eu perdi"; ele acha e leva a luz para o altar da madrinha |
Tradição oral e documento
O que está documentado: o nome, em 1890, no Rio Grande do Sul e em São Paulo, ligado ao Saci e às velas; e o texto completo de 1913, que o autor assumiu como forma dada ao que ouviu. O que não tem documento: a lenda em si antes de 1890, e qualquer versão em que o Negrinho seja contado por quem viveu a escravidão nas estâncias. A figura do menino escravizado castigado por um senhor e protegido pela Virgem é o que faz a versão gaúcha diferente do Saci travesso de São Paulo, e esse é o traço que só aparece no texto de Simões Lopes Neto. As duas fontes concordam num ponto: a vela. Em 1890, vela para pedir proteção e livrar-se de diabruras; em 1913, vela para achar o que se perdeu.
O filme
O canal ainda não tem episódio sobre o Negrinho do Pastoreio. A lenda está na fila de produção; quando o filme estrear, a ficha com capítulos e fontes entra nesta página. Enquanto isso, o Boitatá, do mesmo livro de 1913, já tem filme.
Perguntas frequentes
O que é a lenda do Negrinho do Pastoreio? É a história gaúcha de um menino escravizado, sem nome e sem padrinho, castigado pelo senhor por perder uma tropilha, jogado num formigueiro e aparecido de novo ao lado da Virgem, sua madrinha. Desde então ele acha coisas perdidas para quem lhe acende uma vela.
Quem escreveu o Negrinho do Pastoreio? O texto mais conhecido é de João Simões Lopes Neto, publicado no Correio Mercantil em 26 de dezembro (de 1906, pela data da carta de Coelho Neto, 1º de janeiro de 1907) e no livro Lendas do Sul, em 1913, em Pelotas. A lenda é anterior a ele: Barbosa Rodrigues já registrava o nome em 1890 e citava uma versão de Apolinário Porto Alegre.
De onde é a lenda do Negrinho do Pastoreio? Do Rio Grande do Sul. Barbosa Rodrigues, em 1890, ouviu o mesmo nome também em São Paulo (Itu, Campinas), onde ele chamava assim o Saci.
O Negrinho do Pastoreio é o Saci? Para Barbosa Rodrigues, em 1890, sim: era o Saci "com o nome modificado". No texto de Simões Lopes Neto, de 1913, a figura é outra, um menino escravizado e santo popular, sem perna só, sem carapuça, sem travessura.
Por que se acende vela para o Negrinho do Pastoreio? No texto de 1913, ele só entrega o que achou a quem acende uma vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem, sua madrinha. Em 1890, Barbosa Rodrigues já dizia que em São Paulo se acendiam velas a ele em troca de proteção.
O que se diz ao acender a vela? No texto de 1913: "Foi por aí que eu perdi", três vezes. É regra de lenda, registrada por Simões Lopes Neto.
Qual é o registro escrito mais antigo do Negrinho do Pastoreio? O mais antigo que conferimos é de 1890, na Poranduba Amazonense de Barbosa Rodrigues, que o cita numa nota sobre o Saci. Ele menciona uma versão de Apolinário Porto Alegre que não leu e que não conferimos.
Para a sala de aula
Leia com a turma a carta de Coelho Neto de 1907 e pergunte: o que ele elogia no autor? Depois compare a nota de 1890, em que o Negrinho é o Saci, com o texto de 1913, em que ele é um menino escravizado. O que mudou, e o que a mudança diz sobre quem contava a história nas estâncias? Mais materiais em Professores.
Estante
Os livros desta página, com o critério de cada um. Os dois têm edição digital gratuita.
- Lendas do Sul — João Simões Lopes Neto (1913) · ler grátis (domínio público)
É a versão mais longa em domínio público: a lenda inteira, do menino escravo sem padrinho à tropilha que ninguém vê. Vem com a carta de Coelho Neto, de 1907, que explica como o autor tratou o que ouviu. - Poranduba Amazonense — João Barbosa Rodrigues (1890) · ler grátis (domínio público)
Traz a nota mais antiga que conferimos sobre o nome: para o autor, o Negrinho do Pastoreio do Rio Grande do Sul é o Saci com outro nome, e as velas acesas em São Paulo já eram costume.
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ÁGUAS PROFUNDAS. Lenda do Negrinho do Pastoreio: origem, versões e fontes. [S. l.], 26 out. 2026. Disponível em: <https://aguasprofundasamazonia.com.br/lendas/negrinho-do-pastoreio/>. Acesso em: [data do acesso].
Endereço permanente: https://aguasprofundasamazonia.com.br/lendas/negrinho-do-pastoreio/
Histórico de revisões
- — Primeira publicação, no padrão de guia completo por criatura.
Leia também
- Lenda do Boitatá: do mesmo livro de 1913, Lendas do Sul.
- Lenda do Saci-Pererê: a figura de que o Negrinho é "o nome modificado" para Barbosa Rodrigues.
- Todas as lendas, com as fontes
- Como escolhemos as fontes
Fontes
- João Simões Lopes Neto, Lendas do Sul (Pelotas, 1913), "O Negrinho do Pastoreio", com a carta de Coelho Neto de 1º de janeiro de 1907: edição digital.
- João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (Rio de Janeiro, 1890), p. 18-19: edição digital.
- Apolinário Porto Alegre, Negrinho do Pastoreio: citado por Barbosa Rodrigues em 1890, não conferido.