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Águas Profundas

Vídeos · 13 min · 7 capítulos · publicado em 21/10/2026

Lenda do Jurupari: o espírito que os missionários chamaram de Diabo

A lenda do Jurupari é a de um espírito da noite dos povos indígenas do norte do Brasil que os missionários, desde o século XVI, passaram a chamar simplesmente de Diabo. Couto de Magalhães escreveu em 1876 que, segundo os índios, o Jurupari é "um ente que de noite cerra a garganta das creanças, ou mesmo dos homens, para trazer-lhes afflicções e máos sonhos". O vídeo conta essa troca de nome pela viagem do naturalista Alfred Russel Wallace, que em 1852 levava oito trombetas do Jurupari num navio que pegou fogo no Atlântico.

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Narração com voz sintética e imagens geradas por inteligência artificial, sob pesquisa e revisão humanas. Como o canal é feito.

Capítulos

Toque num capítulo para assistir a partir dali. Tempos aproximados.

  1. O navioAtlântico, 1852
  2. Barra, 1850: a cachoeira do DiaboRio Uaupés, 1852
  3. A carta e a febreCouto de Magalhães, 1876
  4. Os frades que nunca o viramOs missionários, 1560–1890
  5. Cinquenta cachoeirasRio Uaupés, 1852
  6. O fogoAtlântico, 1852
  7. Nós nunca o vimosOs missionários, 1560–1890

Por que os missionários chamaram o Jurupari de Diabo? O que o vídeo conta

Em 1850, Wallace deixa o irmão mais novo em Barra do Rio Negro e sobe o rio atrás de duas coisas: uma ave-guarda-chuva branca e a cachoeira que os comerciantes chamavam de cachoeira do Jurupari, a do Diabo. No rio Uaupés ele anota o que os povos de lá diziam: quando troveja, é o Jurupari com raiva; no eclipse, é ele matando a lua. Em 1851 recebe cartas velhas de Belém: o irmão pegou febre amarela. Ninguém mais escreve.

Em 1852 Wallace sobe cinquenta cachoeiras do Uaupés, ainda fraco da febre. A última grande antes da do Jurupari se chama Uacorouá, que ele traduz por goatsucker, um Caprimulgus: o mesmo tipo de pássaro da noite que o capuchinho Ivo d'Evreux, no Maranhão de 1613, afirmou ser o próprio demônio, segundo Barbosa Rodrigues. Wallace para a uma semana da cachoeira. Entre os objetos que junta no Uaupés, o item 29 da lista: oito trombetas grandes, a música do Jurupari.

No meio, o vídeo volta a 1613, à ilha do Maranhão: os frades capuchinhos franceses ouvem dos índios que o jeropary aparece e os atormenta, e Claude d'Abbeville deixa escrito: mas nós nunca o vimos. Outro frade, Ivo d'Evreux, jura ter visto o demônio, e era um pássaro da noite. Depois vêm a frase latina de Laet e Marcgraf, 'simpliciter diabolum', e o que Couto de Magalhães e Herbert Smith acharam por baixo do nome. Termina com o incêndio do brigue Helen em 6 de agosto de 1852, os dez dias nos botes e a perda de tudo o que Wallace levava. As trombetas e o ritual não aparecem no vídeo, por respeito ao segredo dos povos do Uaupés. A lista completa dos cronistas que fizeram do Jurupari o Diabo (Anchieta e Nóbrega, Cardim, os capuchinhos) está nesta página, abaixo; a tradição do Jurupari é dos povos do rio Uaupés e do Maranhão, e os livros são de quem anotou de fora.

Duração
cerca de 13 minutos (estimado), 7 capítulos
Narração
voz sintética, com pesquisa e revisão humanas
Idioma
português do Brasil
Fontes
Wallace (1853), Couto de Magalhães (1876), Herbert Smith (1879), Barbosa Rodrigues (1890)
Publicado
estreia em 21 de outubro de 2026, às 20h, no YouTube

O que está no papel

Separamos o que tem livro, ano e página do que é só relato oral. Resumos nossos.

O Jurupari no rio Uaupés

Alfred Russel Wallace, A Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro (1853), capítulo sobre os índios do Uaupés

Wallace anotou entre os povos do Uaupés (ele cita Tucanos, Tarianas e Cobeus) que, quando troveja, o Jurupari está com raiva, que a morte natural é obra dele e que, num eclipse, ele está matando a lua, e por isso todos fazem barulho para espantá-lo. Escreveu também sobre a música do Jurupari, que é segredo desses povos; a página e o vídeo não descrevem o ritual.

Assistir a partir de ≈1:20 →

O pesadelo que aperta a garganta

Couto de Magalhães, O Selvagem (1876), Família e religião selvagem

Couto escreveu que as tradições sobre o Jurupari, só achadas no norte do Império, estavam incompletas, mas que a palavra equivalia ao que as amas de leite chamavam de pesadelo: um ente que de noite aperta a garganta das crianças e dos homens e traz maus sonhos. Para ele, os índios não tinham a ideia de um espírito só mau, como o Satanás dos cristãos, e o próprio Jurupari não estava nesse caso.

Assistir a partir de ≈3:10 →

Como o Jurupari virou o Diabo

João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (1890); Herbert H. Smith, Brazil, the Amazons and the Coast (1879), citando Claude d'Abbeville (1614)

Barbosa Rodrigues listou os autores que deram ao espírito os atributos do demônio, de Anchieta e Nóbrega (1560) aos capuchinhos do Maranhão (1613), e citou Laet e Marcgraf: "jurupari et anhangá significant simpliciter diabolum". Claude d'Abbeville anotou que os índios do Maranhão diziam que esse espírito aparecia e os atormentava, e acrescentou: mas nós nunca o vimos. Smith escreveu em 1879 que a palavra tupi passara a servir para o diabo da Bíblia, mas que por trás dela havia um mito indígena de que restavam só rastros fracos.

Assistir a partir de ≈5:30 →

O navio que queimou com as trombetas

Alfred Russel Wallace (1853), viagem de volta no brigue Helen

Em 6 de agosto de 1852, o brigue Helen pegou fogo perto de onde estava guardado o bálsamo de copaíba. Wallace salvou o relógio, uma caixinha de lata, dois cadernos e alguns desenhos. A tripulação passou dez dias nos botes até ser recolhida pelo Jordeson. As coleções do Uaupés, com as oito trombetas da música do Jurupari, se perderam.

Assistir a partir de ≈0:00 →

Fontes

As obras e reportagens citadas no vídeo, com link para o original. A redação desta página é do canal.

  1. A Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro, Alfred Russel Wallace (1853)London, Reeve & Co. Viagem pelo rio Negro e Uaupés (1850–1852), lista de objetos do rio Uaupés e o incêndio do brigue Helen. Tradução nossa. O autor morreu em 1913. Ler o original (domínio público)
  2. O Selvagem, Couto de Magalhães (1876)Rio de Janeiro, Typ. da Reforma. Parte II, Família e religião selvagem (o Jurupari como pesadelo; o cristianismo e os deuses selvagens). O autor morreu em 1898. Ler o original (domínio público)
  3. Brazil, the Amazons and the Coast, Herbert H. Smith (1879)New York, Scribner. Mitos dos índios do Amazonas (Jurupary), com a citação de Claude d'Abbeville (1614). Tradução nossa. O autor morreu em 1919. Ler o original (domínio público)
  4. Poranduba Amazonense, João Barbosa Rodrigues (1890)Rio de Janeiro, Typ. G. Leuzinger & Filhos. Introdução: os cronistas que chamaram o Jurupari de demônio; o Anhangá e o Jurupari. O autor morreu em 1909. Ler o original (domínio público)

Perguntas frequentes

Quem é o Jurupari na lenda?

É um espírito da noite dos povos indígenas do norte do Brasil. Couto de Magalhães (1876) anotou que, segundo os índios, ele aperta a garganta de quem dorme e traz maus sonhos; Wallace (1853) anotou no rio Uaupés que o trovão é a raiva dele e que, no eclipse, ele mata a lua.

Por que o Jurupari é chamado de Diabo?

Porque os missionários e cronistas, desde Anchieta e Nóbrega por volta de 1560, deram a ele os atributos do demônio cristão. Barbosa Rodrigues (1890) cita Laet e Marcgraf: 'jurupari et anhangá significant simpliciter diabolum'. Couto de Magalhães discordou: disse que os índios não tinham um espírito só mau como o Satanás.

O Jurupari é o mesmo que o Anhangá?

Os padres juntaram os dois, mas Barbosa Rodrigues os separa: o Anhangá aparece em corpo, como um veado vermelho de olhar de fogo, e o Jurupari não tem encarnação nenhuma.

O que são as trombetas do Jurupari?

São instrumentos sagrados e secretos dos povos do rio Uaupés. Wallace escreveu em 1853 que as mulheres não podiam vê-las. Por respeito, o vídeo não mostra as trombetas nem o ritual.

O que aconteceu com Alfred Russel Wallace e as trombetas?

Wallace levava oito trombetas da música do Jurupari entre as coleções do rio Uaupés. Em 6 de agosto de 1852 o navio dele, o brigue Helen, pegou fogo no Atlântico e as coleções se perderam; a tripulação ficou dez dias nos botes.

Onde ler as fontes da lenda do Jurupari?

Em quatro livros de domínio público: Wallace (1853), Couto de Magalhães, O Selvagem (1876), Herbert Smith (1879) e Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (1890). Os links estão na lista de fontes desta página.

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