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Águas Profundas
Foice enferrujada com uma gota de sangue encostada numa cerca, ao luar, com pegadas de casco na lama e uma fogueira ao fundo; sobre a imagem, o título Ferir é virar

Estreia quarta-feira, 28 de outubro, às 20h (horário de Brasília)

Estreia no YouTube. Enquanto isso, leia os capítulos, as fontes e as perguntas abaixo.

Vídeos · 12 min · 6 capítulos · estreia em 28/10/2026

Lenda do lobisomem: a mulher que viu o marido virar

Guia da lendaVídeo (esta página)Transcrição e fontes

Lenda do lobisomem, nos livros antigos de Portugal e do Brasil, quase nunca tem lobo: o homem vira porco, burro ou cão, e quem descobre o segredo é a mulher da casa. O vídeo parte de uma carta de leitor de 1917, com quatro frases sobre um porco de botinas, e cruza o mar até as aldeias do norte de Portugal que José Leite de Vasconcelos anotou em 1882.

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Narração com voz sintética e imagens geradas por inteligência artificial, sob pesquisa e revisão humanas. Como o canal é feito.

Capítulos

Toque num capítulo para assistir a partir dali. Tempos aproximados.

  1. A página 149: o porco de botinasRelato de leitor, 1918
  2. Valongo e o fadoValongo e Penafiel
  3. A mulher no pinheiro
  4. O alfinete, a lã vermelha e a roupa do avessoCaldas, Coimbra e Bucelas
  5. O conto de Guimarães: a mulher que sabeGuimarães e Vila Real
  6. A noite em que ela vêCartas de 1917

De onde vem a lenda do lobisomem? O que o vídeo conta

O vídeo abre com uma carta de leitor impressa em 1918, no livro em que Monteiro Lobato reuniu as respostas ao inquérito d'O Estado de S. Paulo sobre o Saci. Nela, o leitor A. Reinke conta o que ouviu numa roda de fogueira, entre caipiras e camaradas: a irmã de um caboclo era casada com um lobisomem. De dia, um homem como os outros; de noite, um porco enorme calçado de botinas. São quatro frases.

Depois a narração atravessa o mar. Em Portugal, Leite de Vasconcelos registrou em 1882, aldeia por aldeia, como se vira lobisomem (o fado de Valongo, o nome de Eva em Penafiel) e como se quebra o encanto: a mulher de Cabeceiras de Basto que subiu num pinheiro e queimou a roupa do marido no forno, a do alfinete (Caldas), a da lã vermelha nos dentes dele (Coimbra), a da roupa virada do avesso (Bucelas) e a mulher do conto de Guimarães, que sabe, avisa e perde as filhas.

O fio é uma comparação: lá, as mulheres têm uma saída. Entre os caipiras da carta de 1917, quem tira sangue do bicho vira também, e isso inclui a mulher dele. A carta não diz que ela tenha ferido ou queimado nada: ela só vê o marido em plena mudança, dando voltas e batendo o queixo, e ele a abandona e foge. O vídeo só conta o que está escrito.

Duração
cerca de 12 minutos (estimado), 6 capítulos
Narração
voz sintética, com pesquisa e revisão humanas; as cartas são lidas por uma segunda voz
Idioma
português do Brasil
Fontes
O Sacy-Pererê (1918, org. Monteiro Lobato) e Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal (1882)
Publicado
estreia em 28 de outubro de 2026, às 20h, no YouTube

O que está no papel

Separamos o que tem livro, ano e página do que é só relato oral. Resumos nossos.

O porco de botinas

Depoimento de A. Reinke, em O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito (org. Monteiro Lobato, 1918), pp. 145–149; o caso do lobisomem está na p. 149

É o relato que um leitor ouviu dos caipiras e mandou ao jornal. O marido da irmã de um caboclo, de dia vestido como qualquer homem, saía à noite como um porco enorme calçado de botinas, comia o sabão dos tanques de lavar roupa e avançava cego em quem cruzasse. A esposa o surpreendeu em plena mudança, dando voltas e batendo o queixo. Ele a abandonou e fugiu e, diz o relato, até hoje não se sabe para onde. Está no livro como depoimento, não como fato apurado.

Assistir a partir de ≈0:00 →

Valongo: o fado e o Tardo

José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal (1882), §346–348, pp. 261–264

Em Valongo, ninguém escolhe: se o padrinho deixa de dizer certas palavras no batismo, a criança tem de correr fado. Já crescida, antes da idade da comunhão, vai se espojar numa encruzilhada, pendura a roupa na árvore mais alta e vira um animal, o Tardo. Se durante sete anos ninguém lhe quebrar o fado, fazendo-lhe sangue, ele passa a lobisomem e come gente. Em Penafiel, a mãe de seis filhas seguidas põe na sétima o nome de Eva por causa do fado.

Assistir a partir de ≈3:10 →

A mulher no pinheiro

Leite de Vasconcelos (1882), §348 f, pp. 263–264; rodapé com a variante de Consiglieri Pedroso, O Lobishomem (1881), p. 14

Em Cabeceiras de Basto, uma camponesa via o marido sair toda noite e voltar gelado. Subiu num pinheiro muito alto, pegou a roupa dele e a meteu no forno a arder; assim, diz o livro, quebrou o fado. Na variante de Pedroso, o bicho corre para tirar a roupa do fogo, às vezes morre e, se escapa, mata quem fez aquilo.

Assistir a partir de ≈4:25 →

O alfinete, a lã vermelha e a roupa do avesso

Leite de Vasconcelos (1882), Tradições Populares de Portugal, §348 (Caldas, Coimbra, Bucelas)

Em Caldas, só a mulher do lobisomem pode picá-lo com um alfinete sem que o sangue lhe faça mal, mesmo que respingue; se o furo sai mal, em vez de se desencantar, dobra-se-lhe o fado. Em Coimbra, uma mulher na janela vê passar um lobisomem que só lhe roça a roupa; no dia seguinte, olha para o marido e vê fios de baeta encarnada atravessados nos dentes dele. Em Bucelas, perto de Lisboa, uma mulher vira do avesso a roupa que o marido deixou em casa, e ele volta aos pinotes, já gente, mas nu.

Assistir a partir de ≈5:50 →

O conto de Guimarães: a mulher que sabe

Leite de Vasconcelos (1882), Tradições Populares de Portugal, contos de Guimarães e de Vila Real

Sete irmãos, filhos de um carvoeiro sem dinheiro, são largados no mato; o menor, o Dedo Polegar, vê uma luz e chega a uma casa onde a dona os acolhe e avisa que o marido é lobisomem e come meninos. Ele chega, cheira "fôlego vivo", amola a faca e, no escuro, corta por engano a cabeça das próprias filhas, depois de o Dedo passar aos irmãos as coroas de metal delas. Os meninos fogem com as botas de sete léguas, e o conto anota, entre parênteses, que os lobisomens usavam essas botas. Em Vila Real, no fim, ele bate na mulher por ela ser a causa de ficar sem as filhas e sem as botas.

Assistir a partir de ≈8:10 →

O sangue que passa adiante

O Sacy-Pererê (1918), depoimentos de A. Reinke (pp. 145–149) e Procópio Silvestre (pp. 240–241)

Reinke registra que, entre os caipiras, quem tirasse sangue de um lobisomem virava também: o homem vira lobisomem, a mulher vira bruxa. Outro leitor do mesmo inquérito, Procópio Silvestre, escreve que o lobisomem foi trazido pelos portugueses e que o encanto se perde com golpe de arma branca. Entre os caipiras da roda, porém, ferir é virar. São relatos impressos, e o vídeo os trata como relatos.

Assistir a partir de ≈10:05 →

Fontes

As obras e reportagens citadas no vídeo, com link para o original. A redação desta página é do canal.

  1. Tradições Populares de Portugal, José Leite de Vasconcelos (1882)Porto, Livraria Portuense de Clavel. §302 (p. 163) e §346–348 (pp. 261–270), com citações de Sá de Miranda, Consiglieri Pedroso e Adolfo Coelho. O autor morreu em 1941. Ler o original (domínio público)
  2. O Sacy-Pererê: resultado de um inquérito, Monteiro Lobato (org.) (1918)Inquérito d'O Estado de S. Paulo de 1917. Depoimentos de A. Reinke (pp. 145–149) e Procópio Silvestre (pp. 240–241). O vídeo lê trechos curtos e parafraseia o resto. Só o texto de 1918 é usado; a apresentação moderna da edição digital não. Ler o original (domínio público)

Perguntas frequentes

Qual a origem da lenda do lobisomem no Brasil?

Veio de Portugal. Em 1917, um leitor do inquérito d'O Estado de S. Paulo escreveu que o lobisomem foi trazido pelos portugueses, e as regras daqui repetem as que Leite de Vasconcelos anotou no norte de Portugal em 1882.

No folclore brasileiro, o lobisomem vira lobo?

Quase nunca. Nos livros de época ele vira o animal onde algum bicho se espojou antes, quase sempre um burro, e o caso paulista de 1917 é um porco enorme calçado de botinas.

Por que o lobisomem tem de correr fado?

É uma regra da tradição portuguesa. Em Valongo, se o padrinho deixa de dizer certas palavras no batismo, a criança tem de correr fado: já crescida, vira animal e, se durante sete anos ninguém lhe fizer sangue, passa a lobisomem e come gente.

Como se quebra o fado do lobisomem?

Depende da aldeia. Em Cabeceiras de Basto, a mulher queimou a roupa do marido no forno; em Caldas, só ela pode picá-lo com um alfinete sem risco; em Bucelas, vira-se a roupa do avesso. No inquérito paulista de 1918, quem tira sangue do bicho é quem passa a virar.

É para crianças?

Não. É folclore e terror brasileiro para adultos, contado com calma, sem sustos gratuitos. Fala de medo dentro de casa e de uma mulher abandonada.

É feito com inteligência artificial?

Sim. A narração é uma voz sintética e as imagens são geradas por IA, junto com páginas de livros de domínio público. A pesquisa, a escolha das fontes, a revisão e a aprovação são humanas, e o canal marca isso no YouTube e aqui.

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