O vídeo abre com uma carta de leitor impressa em 1918, no livro em que Monteiro Lobato reuniu as respostas ao inquérito d'O Estado de S. Paulo sobre o Saci. Nela, o leitor A. Reinke conta o que ouviu numa roda de fogueira, entre caipiras e camaradas: a irmã de um caboclo era casada com um lobisomem. De dia, um homem como os outros; de noite, um porco enorme calçado de botinas. São quatro frases.
Depois a narração atravessa o mar. Em Portugal, Leite de Vasconcelos registrou em 1882, aldeia por aldeia, como se vira lobisomem (o fado de Valongo, o nome de Eva em Penafiel) e como se quebra o encanto: a mulher de Cabeceiras de Basto que subiu num pinheiro e queimou a roupa do marido no forno, a do alfinete (Caldas), a da lã vermelha nos dentes dele (Coimbra), a da roupa virada do avesso (Bucelas) e a mulher do conto de Guimarães, que sabe, avisa e perde as filhas.
O fio é uma comparação: lá, as mulheres têm uma saída. Entre os caipiras da carta de 1917, quem tira sangue do bicho vira também, e isso inclui a mulher dele. A carta não diz que ela tenha ferido ou queimado nada: ela só vê o marido em plena mudança, dando voltas e batendo o queixo, e ele a abandona e foge. O vídeo só conta o que está escrito.
- Duração
- cerca de 12 minutos (estimado), 6 capítulos
- Narração
- voz sintética, com pesquisa e revisão humanas; as cartas são lidas por uma segunda voz
- Idioma
- português do Brasil
- Fontes
- O Sacy-Pererê (1918, org. Monteiro Lobato) e Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal (1882)
- Publicado
- estreia em 28 de outubro de 2026, às 20h, no YouTube