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Lenda do Lobisomem

Publicado em · texto produzido com IA sob direção e revisão humanas; os trechos entre aspas foram conferidos literalmente nas edições digitais citadas.

Resumo rápido

O lobisomem, nos livros antigos de Portugal e do Brasil, quase nunca é um lobo: de noite o homem vira burro ou porco, por um fado que, em várias versões, se quebra fazendo-lhe sangue. O registro mais antigo que conferimos é português, de José Leite de Vasconcellos (1882). No Brasil, Pereira da Costa o anota em Pernambuco (1908) e um leitor paulista descreve, em 1917, um porco de botinas.

Ficha em 30 segundos

Outros nomes
Lobishomem (grafia de 1882 e 1908); Tardo, em Valongo; fado corredor, em Guimarães.
Onde é contado
Portugal (Valongo, Penafiel, Guimarães, Cabeceiras de Basto, Lavadores, Caldas, Coimbra, Bucelas), Pernambuco e o interior de São Paulo.
Registro escrito mais antigo que conferimos
Leite de Vasconcellos, Tradições Populares de Portugal, 1882.
Traço central
o homem de dia, o animal de noite, preso a um fado; em Valongo, passados sete anos sem que ninguém o quebre, o Tardo vira lobisomem.
Como se quebra
depende da versão: fazendo-lhe sangue, queimando a roupa, picando com alfinete ou virando a roupa do avesso.
O que não tem documento
uma origem única e a ideia de que o lobisomem é um lobo; os registros conferidos falam de burro e de porco.

Guia da lenda (esta página)VídeoTranscrição e fontes

A lenda, contada de novo

Em Valongo, no norte de Portugal, ninguém escolhe virar lobisomem. Se o padrinho deixa de dizer certas palavras no batismo, a criança tem de correr fado. Já crescida, vai a uma encruzilhada, pendura a roupa na árvore mais alta e vira um animal, o Tardo. Se durante sete anos ninguém lhe fizer sangue, passa a lobisomem e come gente. De dia anda como qualquer pessoa; só se nota a magreza e a cara amarelada.

Em Cabeceiras de Basto, uma mulher via o marido sair toda noite e voltar gelado, botando bicharia pela boca. Um dia subiu num pinheiro muito alto, pegou a roupa dele e a meteu no forno a arder. Assim, diz o livro, quebrou o fado. Em outras aldeias a saída é outra: em Caldas, só a mulher pode picá-lo com um alfinete sem que o sangue lhe faça mal; em Bucelas, vira-se a roupa dele do avesso.

Do outro lado do mar, a história muda de lugar. Em Pernambuco, a passagem do lobisomem é sentida de longe pelo ladrar dos cães, e dá tempo de cada um fechar a sua porta. No interior paulista, um leitor registra o que ouviu: a irmã de um caboclo era casada com um lobisomem, um homem como os outros de dia e, de noite, um porco enorme calçado de botinas. Uma noite a mulher o surpreendeu em plena mutação, dando voltas e batendo o queixo; ele a abandonou e fugiu. E há uma regra que lembra um cuidado português: entre esses caipiras, quem tira sangue do bicho vira também. Vasconcellos já anotara em Lavadores que o sangue não pode salpicar quem fere, para a pessoa não ficar com o fadário.

O que dizem as fontes

Leite de Vasconcellos, Tradições Populares de Portugal (1882)

Vasconcellos anotou, aldeia por aldeia, como se vira lobisomem e como se quebra o encanto. Na parte sobre o fado, de Valongo:

Tanto o Tardo como o Lobishomem, andão de dia em fórma de homem, e de noute em fórma de animal.

— Tradições Populares de Portugal, José Leite de Vasconcellos (1882), linhas 15232 a 15245 do texto digitalizado · ler no acervo

Quem tiver sete filhos a eito, rapazes ou raparigas, não sendo uns padrinhos dos outros, um qualquer d’elles tem de ser Corredor

— Tradições Populares de Portugal, José Leite de Vasconcellos (1882), linhas 15175 a 15193 do texto digitalizado · ler no acervo

Altas horas da noute transforma-se em animal, quasi sempre em burro, e corre desalinhadamente grande extensão de terreno.

— Tradições Populares de Portugal, José Leite de Vasconcellos (1882), linhas 15243 a 15256 do texto digitalizado · ler no acervo

Uma vez a mulher foi a cima de um pinheiro muito alto buscar a roupa d’elle e metteu-a no forno a arder: assim lhe quebrou o fado

— Tradições Populares de Portugal, José Leite de Vasconcellos (1882), caso de Cabeceiras de Basto, linhas 15243 a 15256 do texto digitalizado · ler no acervo

De quem é a história: são relatos de aldeias portuguesas que o autor registrou, com o nome do lugar ao lado de várias variantes; algumas vêm de outros estudiosos que ele cita.

F. A. Pereira da Costa, Folk-lore pernambucano (1908)

O autor anota a crença em Pernambuco. Para ele, a passagem do lobisomem é pressentida de longe pelo ladrar de cães e dá tempo, quase sempre, de cada um fechar a sua porta. E diz o que acontece a quem o enfrenta:

um ferimento qualquer que produza derramamento de sangue, por pouco mesmo que seja, tira-lhe o encantamento

— Folk-lore pernambucano, F. A. Pereira da Costa (1908), linhas 3743 a 3759 do texto digitalizado

O Sacy-Perêrê, organizado por Monteiro Lobato (1918)

O livro reúne as respostas ao inquérito do jornal O Estado de S. Paulo sobre o Saci, aberto em 1917. Um leitor conta, do que ouviu dos caipiras, o caso da irmã de um caboclo casada com um lobisomem:

transformava-se num enorme porco, calçado de botinas

— O Sacy-Perêrê, Monteiro Lobato (org.) (1918), linhas 7719 a 7775 do texto digitalizado · ler no acervo

comia o sabão que encontrava nos lavadouros de roupas, lambia os tachos de gordura

— O Sacy-Perêrê, Monteiro Lobato (org.) (1918), mesmas linhas · ler no acervo

toda a pessoa que fizer sangue em um lobishomem transforma-se

— O Sacy-Perêrê, Monteiro Lobato (org.) (1918), linhas 7745 a 7775 do texto digitalizado · ler no acervo

De quem é a história: o depoimento vem de um leitor do inquérito que reproduz o que ouviu de caipiras e de camaradas. O livro o trata como relato, não como fato apurado.

Versões lado a lado

VersãoRegistroEm que viraO que fazer, ou o que acontece
Valongo, PortugalVasconcellos, 1882Animal chamado Tardo; se em sete anos ninguém lhe quebrar o fado, passa a lobisomemO fado se quebra fazendo-lhe sangue
Guimarães, PortugalVasconcellos, 1882O lobisomem passa às terças e sextas-feiras, fazendo barulho como um comboioO fado dele se chama fado corredor
Sem lugar indicado, PortugalVasconcellos, 1882Quem pratica uma ação má corre fado e vira animal, quase sempre um burroO fado dura sete anos
Cabeceiras de Basto, PortugalVasconcellos, 1882Marido que sai toda noite e volta geladoA mulher sobe a um pinheiro e queima a roupa dele no forno
Caldas, Coimbra e Bucelas, PortugalVasconcellos, 1882Lobisomem de aldeiaAlfinete, fios de lã vermelha nos dentes, roupa virada do avesso
Lavadores, PortugalVasconcellos, 1882Lobisomem feridoO sangue não pode salpicar quem fere, ou a pessoa fica com o fadário
PernambucoPereira da Costa, 1908Lobisomem anunciado pelo ladrar dos cãesQuem o fere e faz sangue lhe tira o encantamento
Interior paulistaCarta de 1917, em O Sacy-Perêrê, 1918Porco enorme calçado de botinasQuem tira sangue do bicho vira também

Tradição oral e documento

O que está documentado: Vasconcellos anotou, em 1882, regras e nomes do fado português; Pereira da Costa descreve o lobisomem pernambucano em 1908; um leitor paulista relata em 1917 o que ouviu de caipiras. Um outro leitor do mesmo inquérito, Procópio Silvestre, escreve que o lobisomem foi trazido pelos portugueses. O que não tem documento: uma origem única e datada, e a ideia de um lobisomem sempre lobo. Nas fontes que conferimos ele vira burro ou porco. As versões também discordam entre si: em Valongo e em Pernambuco, fazer sangue desfaz o encanto; em Lavadores e no relato paulista, o sangue pode passar o fado a quem fere.

O filme: a mulher que viu o marido virar

O canal publica em 28 de outubro de 2026, às 20h (horário de Brasília), um filme que parte da carta de 1917 e cruza o mar até as aldeias portuguesas de Vasconcellos. Ele compara o que as mulheres podem fazer em cada versão. A página do filme traz capítulos, fontes e perguntas: Lenda do Lobisomem: a mulher que viu o marido virar. O Lobisomem também é o número três em As 12 Criaturas Mais Assustadoras do Brasil, que estreia em 30 de outubro.

Perguntas frequentes

Qual é a origem da lenda do lobisomem no Brasil? O registro escrito mais antigo que conferimos é português: Leite de Vasconcellos anotou o fado do lobisomem no norte de Portugal em 1882. No Brasil, um leitor do inquérito paulista de 1917 escreve que o lobisomem foi trazido pelos portugueses.

O lobisomem vira lobo? Nas fontes que conferimos, quase nunca. Vasconcellos fala em animal, quase sempre um burro; o relato paulista de 1917 descreve um porco enorme calçado de botinas.

O que é correr fado? É a regra da tradição portuguesa pela qual alguém vira animal à noite. Em Valongo, se durante sete anos ninguém lhe quebrar o fado, fazendo-lhe sangue, o Tardo passa a lobisomem e come gente.

Como se quebra o fado do lobisomem? Depende do lugar. Em Cabeceiras de Basto, a mulher queimou a roupa do marido no forno; em Caldas, a mulher pode picá-lo com um alfinete sem que o sangue lhe faça mal; em Bucelas, vira-se a roupa dele do avesso. Em Pernambuco, quem o fere e faz sangue desfaz o encantamento; no relato paulista, quem tira o sangue vira também.

O sétimo filho vira lobisomem? O registro de 1882 traz regras desse tipo. Para quem tiver sete filhos seguidos, sem que sejam padrinhos uns dos outros, um deles tem de ser Corredor, isto é, correr fado; em Cabeceiras de Basto, um dos sete ia para Corredor ou Lobishomem. Em Penafiel, a mãe que tem seis filhas seguidas deve pôr na sétima o nome de Eva, por causa do fado.

O lobisomem existe? As fontes tratam como crença e como relato. Nenhum dos trechos conferidos apresenta prova de um caso real; o livro de 1918 registra o depoimento como relato, não como fato apurado.

O vídeo do lobisomem é para crianças? Não. É terror e folclore para adultos, contado com calma e sem sustos gratuitos. Para crianças, as páginas de reconto estão em Professores.

Para a sala de aula

Para turmas do Ensino Médio, as versões lado a lado servem a uma aula sobre tradição oral: o que muda quando a mesma ideia, um homem que vira animal por um fado, passa de aldeias portuguesas para Pernambuco e para o interior paulista? Peça que os alunos montem uma tabela de versões e digam qual regra para quebrar o encanto é a mais diferente das outras. Mais materiais em Professores.

Estante

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ÁGUAS PROFUNDAS. Lenda do Lobisomem: origem, versões e fontes. [S. l.], 23 out. 2026. Disponível em: <https://aguasprofundasamazonia.com.br/lendas/lobisomem/>. Acesso em: [data do acesso].

Endereço permanente: https://aguasprofundasamazonia.com.br/lendas/lobisomem/

Histórico de revisões
  • — Primeira publicação, no padrão de guia completo por criatura.

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Fontes

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