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Águas Profundas
Cavalo preto deitado no pasto ao amanhecer, de crina trançada em tranças finas, com uma lamparina acesa e uma faca ao lado; sobre a imagem, o título Crina trançada

Estreia domingo, 25 de outubro, às 20h (horário de Brasília)

Estreia no YouTube. Enquanto isso, leia os capítulos, as fontes e as perguntas abaixo.

Vídeos · 14 min · 7 capítulos · estreia em 25/10/2026

Lenda do Saci: as cartas mais assustadoras de 1917

Guia da lendaVídeo (esta página)Transcrição e fontes

A lenda do Saci, nas cartas de 1917, não é a do mascote de festa escolar: é a de um diabinho peludo, de camisa vermelha e uma perna só, que a mãe de uma menina de quatro anos usava para as crianças dormirem, e que gente adulta jurava ter visto numa porteira, numa estrada ou num quarto de arreios. Em janeiro de 1917 o jornal O Estado de S. Paulo pediu aos leitores que contassem como receberam o Saci quando crianças; as respostas viraram, em 1918, o livro O Sacy-Perêrê, organizado por Monteiro Lobato. O vídeo conta a primeira carta, a de uma senhora que passou anos vendo o Saci em qualquer sombra, e as mais escuras que vieram depois.

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Narração com voz sintética e imagens geradas por inteligência artificial, sob pesquisa e revisão humanas. Como o canal é feito.

Capítulos

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  1. A mãe e o calmante
  2. A menina e o tanque
  3. 1917: um jornal pergunta pelo Saci
  4. Os cavalos da carta e as origens do Saci
  5. As cartas mais escuras
  6. Como se prende (e se solta) um Saci
  7. O calmante que ficou

O que as cartas de 1917 contam sobre o Saci? O que o vídeo conta

Uma senhora conta ao jornal que, aos quatro anos, a mãe dela, que cuidava dos meninos da casa enquanto os donos iam ao teatro, usava o Saci como calmante: um diabinho muito peludo, de camisa vermelha e uma perna só, cuja profissão era carregar para uma mata distante as crianças desobedientes. Funcionou tão bem que, até poucos anos antes da carta, ela via o Saci em qualquer sombra, e numa corrida de fuga atirou-se pela primeira porta que encontrou e caiu dentro de um tanque de natação.

O prefácio do livro conta como o inquérito nasceu: num passeio pelo Jardim da Luz, em São Paulo, alguém reclamou que ali houvesse anões de jardim alemães em vez de um Saci. Depois vêm os cavalos que amanheciam com a crina embaraçada, o Saci Cererê que Couto de Magalhães anotou em 1876, a festa do diabo no inferno contada por um leitor do sul de Minas e o Dia do Saci, que uma lei estadual de 2004 marcou para 31 de outubro.

As cartas mais escuras trazem o carro de bois que dispara numa porteira, o fazendeiro que perdia cavalos de crina trançada e desmaiou no quarto dos arreios, o valentão de Piraju que esqueceu a garrucha na cinta e os olhos de fogo na dobra da estrada. O vídeo termina com como se prende um Saci (um rosário de caiapiá jogado no redemoinho), como se solta (um nó desfeito com um ralho) e o ovo intacto no oco da gameleira. As cartas são de gente do interior de São Paulo, de Minas e do Estado do Rio; o livro é de quem as reuniu.

Duração
cerca de 13 minutos (estimado), 7 capítulos
Narração
voz sintética, com pesquisa e revisão humanas
Idioma
português do Brasil
Fontes
O Sacy-Perêrê (Monteiro Lobato, org., 1918), O Selvagem (Couto de Magalhães, 1876), Lei estadual nº 11.669/2004
Publicado
estreia em 25 de outubro de 2026, às 20h, no YouTube

O que está no papel

Separamos o que tem livro, ano e página do que é só relato oral. Resumos nossos.

A primeira carta: o calmante da mãe

O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito (1918), «O primeiro depoimento», de uma senhora anônima

A primeira carta publicada é de uma senhora que não assinou. Ela conta que aos quatro anos ouvia a mãe, que cuidava dos meninos da casa enquanto os patrões iam ao teatro, descrever o Saci como um diabinho muito peludo, de camisa vermelha e uma perna só, que carregava para uma mata distante as crianças desobedientes. Escreveu que a influência do Saci sobre ela foi terrível até poucos anos antes e que, mandada à chácara, parecia-lhe que um Saci vinha pulando atrás dela e dizia: se corres, é pior. Numa dessas fugas ela caiu dentro de um tanque de natação.

O inquérito do Estadinho

O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito (1918), prefácio e chamada do inquérito

Segundo o prefácio, a ideia nasceu de uma conversa na redação, à noite, quando a guerra foi posta de parte e só se falou de Saci. O jornal abriu as colunas com três perguntas: como o leitor recebeu o Saci na infância e de quem; como ele é hoje na região; e que casos, passados ou ouvidos, o leitor sabe. Monteiro Lobato organizou as respostas em livro no ano seguinte e deixou no prefácio a frase de que o medo é o pai da bicharia.

O Saci Cererê de 1876

Couto de Magalhães, O Selvagem (1876), «Família e religião selvagem»

Quarenta anos antes das cartas, Couto de Magalhães registrou o Saci Cererê como figura das tradições do povo do sul do Império, um pequeno indígena manco de um pé, com um barrete vermelho e uma ferida em cada joelho, e anotou que quase nenhum caipira de São Paulo ou bruaqueiro de Minas aceitava ouvir que o Saci era imaginário. O texto de abertura do inquérito de 1917 diz que o nome vem do indígena e que, sob a influência africana, o Saci passou de caboclinho a menino negro, a mudança que se vê nas cartas.

As cartas mais escuras

O Sacy-Perêrê (1918), depoimentos de um «Bandeirante», de um anônimo de Piraju e de V. P. C.

Um leitor que assinou «um Bandeirante» contou o carro de bois que disparou numa porteira e o fazendeiro que perdia cavalos de crina tão bem trançada que só a faca desmanchava, e que desmaiou no quarto dos arreios quando o Saci passou entre as pernas dele. Um anônimo de Piraju contou o caboclo Chico Manuel, valentão que esqueceu a garrucha na cinta, e avisou que não garantia a autenticidade, mas que quem lhe contou jurava ser verdade. V. P. C. ouviu, aos sete anos, a história do tio Damião e dos olhos de fogo na dobra da estrada.

Como se prende e se solta um Saci

O Sacy-Perêrê (1918), prefácio de Monteiro Lobato; depoimentos do «casmurro» de Lambari e de «Joaquim»

O prefácio registra que, nos dias de vento, o Saci passa dentro dos redemoinhos de poeira e que basta lançar no turbilhão um rosário de caiapiá para tê-lo cativo. Registra também o que vem depois: o caboclo, cansado das travessuras, amarra o Saci com um nó bem dado, sente falta do mato e vai desfazer o nó com um ralho amigo: vá-se embora, peste. Um leitor que assinou Joaquim contou que a velha ama deixava um ovo fresco no oco de uma gameleira e que, trinta anos depois, o ovo que ele pôs no mesmo lugar amanheceu intacto.

Fontes

As obras e reportagens citadas no vídeo, com link para o original. A redação desta página é do canal.

  1. O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito, Monteiro Lobato (org.) (1918)São Paulo, Secção de Obras d'O Estado de S. Paulo. Prefácio, o inquérito e os depoimentos citados; só o texto de 1918 foi usado. Organizador e depoentes em domínio público. Ler o original (domínio público)
  2. O Selvagem, Couto de Magalhães (1876)Rio de Janeiro, Typ. da Reforma. Parte II, Família e religião selvagem (o Saci Cererê). O autor morreu em 1898. Ler o original (domínio público)
  3. Lei nº 11.669, de 13 de janeiro de 2004, Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (2004)Institui o Dia do Saci, a ser comemorado todo 31 de outubro (lei estadual de São Paulo). Ver a fonte original

Perguntas frequentes

O que é a lenda do Saci?

É a tradição de um ser de uma perna só, de carapuça vermelha, que aparece em porteiras, estradas e redemoinhos do interior do Brasil. Em 1876 Couto de Magalhães o registrou como o Saci Cererê, um pequeno indígena manco de um pé; nas cartas de 1917 ele aparece sobretudo como um menino negro de uma perna só, de olhos e lábios vermelhos.

Quem pôs o Saci na cabeça da menina da primeira carta de 1917?

Na primeira carta publicada, uma senhora anônima conta que quem lhe falou do Saci foi a mãe dela, que usava o diabinho como calmante para as crianças dormirem. O Saci, dizia a mãe, carregava para uma mata distante as crianças desobedientes.

O que foi o inquérito do Saci de 1917?

Foi uma pesquisa do jornal O Estado de S. Paulo, na edição da tarde (o Estadinho): o jornal pediu aos leitores que contassem como receberam o Saci na infância, como ele é na região deles e que casos conheciam. As respostas foram reunidas por Monteiro Lobato no livro O Sacy-Perêrê (1918).

Por que o Saci trança a crina dos cavalos?

Nas cartas, os cavalos amanhecem exaustos, com a crina embaraçada ou trançada, às vezes mortos; diziam que o Saci ia buscar os arreios, montava os animais, trançava a crina e alguns morriam das correrias. É o que os leitores contaram; o livro registra como crença, não como fato.

Como se prende e como se solta um Saci?

Segundo o prefácio de Lobato, basta lançar um rosário de caiapiá no redemoinho de poeira para prender o Saci. Para soltá-lo, o caboclo desfaz o nó que o amarrava e diz com um ralho: vá-se embora, peste.

Quando é o Dia do Saci?

31 de outubro. Uma lei do Estado de São Paulo, a Lei nº 11.669, de 13 de janeiro de 2004, instituiu o Dia do Saci nessa data. O canal montou um kit para professores com o Saci e mais quatro lendas, atividades e plano de aula (link nesta página).

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