Águas Profundas Águas Profundas
Episódio · O Curupira dos rios da Amazônia não era o protetor verde das cartilhas escolares, mas uma presença concreta com quem os caçadores negociavam carne no escuro, aceitavam trocas desiguais e pagavam com o próprio corpo se esquecessem a única regra imposta.

O Homem que Comeu com o Curupira

Um homem saiu para caçar e se perdeu no mato. A noite fechou. Ele se meteu debaixo de uma árvore grande, com um macaco abatido do lado.

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13 min · 1945 palavras de narração · publicado em 29/10/2026 · 6 capítulos

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Capítulos

  1. Curupira na mata
  2. Meses depois
  3. A flecha certeira
  4. Curupira de verdade
  5. Em casa
  6. Curupira existe?

Transcrição

Abertura

Um homem saiu para caçar e se perdeu no mato.

A noite fechou. Ele se meteu debaixo de uma árvore grande, com um macaco abatido do lado.

Já tarde, do outro lado do tronco, uma voz:

"Aqui cheira a gente."

Ele não corre. Baixa a cabeça e responde:

"Sou eu, pae."

O que sai de trás da raiz vai pedir três coisas para comer. A primeira é a mão dele.

Você daria?

Esta noite vai dar a esse homem uma flecha que não erra. E duas proibições.

Ele vai quebrar as duas.

Da primeira vez, o Curupira junta o corpo dele de volta com cera.

Da segunda, basta uma cuia de mingau quente.

"Ah! meu filho! Dá-me a tua mão que eu quero comer."

Ato 1 — A Faca e o Peito

O homem não oferece a própria carne.

Sem levantar a vista, ele segura a carcaça do macaco abatido na restinga, corta a pata dianteira pela junta e estende o pedaço sangrento para a frente.

O ser pega o membro do bicho, mastiga a carne crua com os tendões estalando entre os dentes e engole sem mastigar duas vezes.

Mal acaba de limpar a boca com as costas do braço, a voz exige de novo:

"Corta também a outra banda da tua mão que eu quero comer."

O caçador desliza o ferro da faca pela cartilagem do macaco, decepa a outra pata dianteira e entrega na escuridão.

A criatura tritura os ossos finos, engole a carne escura e limpa as beiças sem tirar os olhos do homem encolhido.

Então vem a terceira ordem, mais baixa que as outras:

"Dá-me o teu coração para eu comer."

O homem enfia a lâmina entre as costelas do animal, retira o coração ainda morno e passa o órgão gotejante para a mão estendida.

O Curupira engole o coração inteiro.

O caçador olha firme para a criatura e diz:

"Pae ! Dá-me também o teu coração para eu comer."

A criatura não recua, não grita e não se enfurece com a audácia do caçador.

Ela apenas estende a palma vazia e responde:

"Me dá, então, a tua faca."

O caçador entrega a lâmina de ferro.

Sem hesitar um segundo, o Curupira segura o cabo de madeira, vira a ponta afiada contra o próprio peito e enterra o ferro até o fim.

A criatura tomba pesada de lado entre as sapopemas.

O silêncio da noite volta a tomar conta da mata do Solimões.

O homem volta para casa, deixando o corpo estendido onde caiu.

Ato 2 — O Presente e o Colar de Contas

O tempo corre no rio.

Passam-se as cheias, o trabalho da roça segue o curso das águas, e a história daquela noite parece sepultada sob as folhas caídas da mata.

Mas quem vive da caça na floresta carrega a memória dos caminhos por onde andou.

Depois de passados alguns meses, olhando para a filha pequena que brincava no chão da casa sobre palafitas, o caçador lembra daquele corpo estendido na raiz da sumaúma.

A história não diz o nome da menina, nem a idade que ela tinha.

Mas diz o que o pai pensou enquanto ajeitava as ferramentas de trabalho no cesto:

"Vou ainda tirar os dentes do Corupira para contas de minha filha."

Ele pega o machado de ferro e volta ao mato, até a grande árvore.

O caçador contorna a madeira grossa e olha para a depressão onde o corpo havia tombado com a faca no peito.

Ali na terra, a fonte diz que estavam os dentes quase azuis.

Dentes inteiros, com um tom fosco de pedra rara sob a fresta de sol que vencia a copa das árvores.

O caçador ergue o machado e golpeia a arcada dentária para arrancar os dentes que serviriam de adorno para a filha.

Ao primeiro golpe do ferro, o Curupira acorda.

A criatura senta-se no chão, esfrega a boca onde o machado bateu e fita o homem que empunha a ferramenta.

Não há cólera na voz que ecoa por entre as sapopemas.

O ser passa a mão nos beiços e fala devagar:

Ah, meu filho, agora eu sei que tu me queres bem.

O caçador, com o coração aos pulos e sem coragem de baixar os braços, responde curto:

"É verdade."

A criatura aceita a resposta como um juramento selado.

Ela limpa as folhas presas ao corpo e diz ao homem:

Como tu me queres bem, agora eu vou te dar um arco e uma flecha. Quanto tu quiseres, pedirás a essa flecha. Flecha para o cerrado sem destino, que ela há de pegar a presa.

O presente é absoluto: um arco que nunca erra, uma flecha que encontra a caça invisível no meio do mato fechado, sem necessidade de mira nem de rastro.

Mas todo pacto entregue nas mãos de um homem traz uma barreira que não pode ser tocada.

E o Curupira crava a única condição que sustentava o acordo:

Mas tu não flecharás pássaros de bando, porque pode acontecer que eles te matem.

Ato 3 — O Bando no Céu

O caçador desce a ribanceira do rio com a arma que nenhum outro homem possuía.

Nos dias seguintes, a casa sobre palafitas teve caça todos os dias.

Sempre que precisava de alimento, ele entrava na mata de terra firme, pedia à flecha o que queria e soltava a corda para o meio da ramagem sem mirar em nada.

Bastava soltar a madeira: a flecha curvava por entre as árvores, contornava os cipós e trazia para a beira do caminho a caça.

A fonte resume esse tempo com cinco palavras: diariamente ele era feliz.

A abundância afasta a memória do perigo.

Quem mata sem esforço esquece rápido o preço estabelecido na raiz da sumaúma.

Numa tarde quente de mormaço, caminhando por uma restinga alta onde o vento do Solimões soprava fraco, o homem escuta uma gritaria áspera descendo da copa das árvores.

No alto dos galhos secos de uma embaúba, dezenas de aves marrons de garganta vermelha saltavam de galho em galho, quebrando gravetos e gritando em coro estridente.

Era um bando de aracuãs.

O aracuã é ave que anda sempre em bando: pousa em bando, come em bando.

O homem olha para as aves gordas empoleiradas na ramagem alta.

Ele tem o arco que tudo alcança, a mão firme no cordel e a certeza de que nenhuma presa escapa do disparo.

Naquele instante, diz o relato de 1890, o caçador esqueceu-se.

Ele aponta para o alto e solta a flecha no meio do bando.

Uma das aves cai rodopiando pelo vão das folhas, com o peito varado pela madeira.

Mas antes que o corpo da ave toque o capim, o céu da mata fecha.

O bando inteiro mergulha dos galhos altos em linha reta.

Não é a fuga desordenada dos pássaros assustados pelo tiro.

Centenas de asas batem contra a cara do caçador, garras rasgam-lhe os braços, e dezenas de bicos afiados começam a furar a carne viva do peito, da garganta e do rosto.

O homem tomba sobre as raízes, tenta erguer as mãos vazias para proteger os olhos, mas as aves caem sobre ele com peso esmagador.

Como a fonte anotou sem enfeite:

Os companheiros caíram sobre ele e despedaçaram-lhe as carnes.

Morreu.

Ato 4 — A Virada na Poeira dos Livros

O corpo do caçador jaz estraçalhado no chão de folhas podres.

A carne aberta pelos bicos das aves perdeu a forma humana.

É nesse momento que o Curupira volta a aparecer.

Ele não vem para recolher a arma nem para zombar da fraqueza do homem que quebrou a promessa.

A criatura senta-se junto aos despojos, acende um fogo pequeno e aquece cera no fogo.

Com as mãos calejadas, o ser da mata pega a cera quente e começa a untar as feridas, juntando os retalhos de carne dilacerada, colando a pele rasgada e moldando o corpo do caçador como quem conserta um pote de barro quebrado.

A vida volta para o peito costurado com cera.

O caçador abre os olhos e vê diante de si o mesmo pequeno companheiro da noite da sumaúma.

O Curupira olha para as juntas recém-coladas e entrega a última regra:

"Agora não comas cousas quentes."

Isso não ficou guardado apenas na memória oral das malocas do Solimões.

Em 1876, o general Couto de Magalhães publicou no Rio de Janeiro uma obra que ensinava quem viajava pelo interior a conversar com a gente dos rios na língua geral.

No meio de frases práticas, uma embaixo da outra, o livro traz como pergunta comum do cotidiano:

Você algum dia viu o Curupira?

E a resposta ensinada para quem viajava pelos rios não era uma risada de descrença, mas uma frase seca:

Uma vez eu já encontrei um no mato.

Poucos anos antes, o naturalista inglês Henry Walter Bates anotava que um rapaz mameluco que o acompanhava pela mata tremia ao ouvir batidas secas, como se uma barra de ferro batesse no oco de uma árvore dura.

Para os remeiros do Pará, aquilo era o Curupira golpeando as sapopemas para testar se as raízes aguentariam o vento da tempestade que se aproximava.

O corpo dele agora era feito de carne humana colada com cera de abelha.

Ato 5 — A Cuia Fumegante

O homem volta para casa caminhando devagar pela ribanceira.

A fonte não diz se ele contou à mulher o que havia acontecido debaixo da sumaúma, nem se mostrou as marcas da cera.

Ele guarda o machado, encosta o arco milagroso e volta a sentar-se na esteira de palha.

O relato diz que o homem caçava todos os dias.

A rotina da roça e do rio continuou a correr, mas agora com uma fronteira invisível levantada dentro da própria cozinha.

A comida fria, o peixe assado de véspera, a água fresca colhida no igarapé pela manhã.

Mas um dia, o homem volta da mata.

No fogo do chão, a mulher preparava uma cuia de tacacá.

O tacacá é a goma retirada do polvilho da mandioca, que se toma como mingau, servida quente na cuia.

A fumaça quente sobe da cuia escura, cheirando a mandioca cozida.

A história não diz se ela sabia da proibição.

Mas diz o gesto simples que ela fez ao tirar a vasilha do fogo: estendeu a cuia cheia de caldo fumegante para as mãos do marido.

O caçador olha para o mingau quente.

Ele caçava todos os dias, vencia a mata fechada, trazia a presa sem errar o tiro e havia voltado da própria morte pela cera da abelha.

Ali, diz o texto de Barbosa Rodrigues:

Um dia esquecendo-se, dando-lhe a mulher tacacá quente...

O homem encosta a beirada da cuia nos lábios e engole o primeiro gole de tacacá fervente.

O calor desce pela garganta e atinge as emendas de cera que seguravam as carnes do peito.

Não houve grito, não houve tempo para soltar a cuia no chão da casa de palha.

A cera derreteu por dentro.

A carne que as aves haviam despedaçado soltou-se das juntas em segundos, como barro mole desmanchando na correnteza do rio.

Como a fonte escreveu em cinco palavras secas:

Tomou e derreteu-se logo.

Encerramento

Na beira do rio Solimões, a história do caçador não termina com uma lição de respeito às árvores nem com um aviso para as crianças da vila.

A história não diz se a filha chegou a ter o colar de contas.

A mulher ficou com a cuia de tacacá no assoalho de madeira.

Essa história é dos povos do rio Solimões, que a contavam em língua geral, o nheengatu. Quem a pôs no papel, em 1890, foi o botânico João Barbosa Rodrigues.

E, no Pará, os remeiros continuaram a dizer que a pancada longe no mato era o Curupira batendo nas sapopemas, para ver se as árvores aguentavam a tempestade que vinha.

Se um dia você ouvisse esse som no oco da madeira, saberia reconhecer a regra antes de aceitar a caça?

Fontes

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