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Capítulos
- O que ninguém conta sobre Mapinguari
- Mapinguari: o tamanho do problema
- Mapinguari: as raízes antigas
- A versão que ninguém suaviza
- Por que Mapinguari produz essas histórias
- O próximo episódio
Transcrição
Abertura
Em 1975, às margens do rio Jamanxim, um homem caçava para um acampamento de garimpo quando sentiu um cheiro.
Anos depois, contou a uma revista americana o que veio em seguida: o fedor entrou nele, deixou tudo girando, e ele passou dois meses sem ficar bom. Ele não diz que viu o bicho de perto. Diz que respirou.
Na mata, esse cheiro tem dono: o Mapinguari.
Um ornitólogo do Museu Goeldi foi atrás dele, com barco e frasco. Em 2001, escreveu que sete caçadores diziam ter matado um. Três guardaram pedaços.
Neste dossiê: os sete caçadores, o que os três guardaram, e o que voltou dentro do frasco.
Ato 1 — A lista de 1993 e o livro onde ele não está
O Mapinguari não nasceu num laboratório. Nasceu na boca de quem trabalha no mato: seringueiro, caçador, garimpeiro.
Os relatos mudam de rio para rio, mas o esqueleto se repete. Um bicho grande, de pelo comprido e avermelhado, que às vezes se levanta nas patas de trás. Cara de macaco, dizem alguns. Força absurda. Couro tão grosso que a faca não passa. E um horário: aparece no fim da tarde e de noite, quando o caçador já está voltando.
A voz é o que mais assusta quem ouviu. Um grito alto demais para um bicho, parecido com um homem gritando no meio da mata. Tem quem compare com trovão.
E as marcas. Pegada redonda, grande. Fezes que lembram as de cavalo. E os pés, dizem alguns, virados para trás, como os do Curupira, como se a mata inteira usasse o mesmo truque para enganar quem segue rastro.
Tudo isso não é invenção nossa. Está na lista que o próprio cientista montou, ouvindo testemunhas, no artigo de 1993. E ele anotou mais uma coisa: que o bicho só morre se for ferido na barriga, perto do umbigo, no olho, ou dentro da boca, na hora em que ele grita.
Pense no que isso significa para um caçador. A arma só funciona se você deixar o bicho abrir a boca na sua frente.
Guarde essa lista. Ela volta quando os sete caçadores entrarem nesta história.
Agora, um detalhe que incomoda. Em 1876, Couto de Magalhães publicou "O Selvagem", com lendas tupi recolhidas em campo. O Curupira está lá. A Cobra Grande está lá. O Mapinguari, não. Nem uma linha.
Isso quer dizer que ele é invenção recente? Não necessariamente. O mais provável é outra coisa: ele morava onde os folcloristas não iam. Na mata funda, longe dos rios grandes, onde só entrava quem cortava seringa.
E quando ele chega ao papel, chega pela literatura dos seringais. Num romance de Carlos de Vasconcelos, "Deserdados", na edição de 1922, um personagem luta com um mapinguari. O livro descreve um guerreiro fabuloso, com cabeça e pés de homem, garras de onça, forrado de uma carapaça de jabuti, impenetrável à faca e à bala. Um bicho que anda pela mata chupando o miolo dos cabras destemidos.
É ficção. Mas é ficção escrita por quem conhecia a mata, cem anos atrás, com os mesmos traços que os caçadores repetem hoje: a bala que não entra, o homem que não volta. Só que isso ainda é literatura. O que vem agora é ciência.
Foi dessa gente, e não dos livros, que um cientista americano resolveu ouvir a história como quem ouve um dado. O que ele fez com esse dado, você vai entender daqui a pouco. Mas o que tornou tudo mais estranho não foi o bicho. Foi o endereço de onde a pergunta saiu.
Ato 2 — 1988: o relato que o ornitólogo não descartou
David Oren era ornitólogo, estudava aves. Americano, trabalhava no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. Não era um caçador de monstros. Era o contrário disso: um homem de catálogo, de medida, de nome científico em latim.
Anos depois, ele contaria que em 1988 ouviu um relato que não conseguiu descartar. Vinha das matas do que hoje é o norte do Tocantins. E a conclusão dele, ao ouvir, foi uma só: aquilo só podia ser uma preguiça-terrícola.
Preguiça, sim. A América do Sul já teve preguiças do tamanho de um elefante, que andavam no chão e se erguiam nas patas de trás para alcançar os galhos. A ciência dá todas como extintas há milhares de anos. Mas e se uma linhagem menor tivesse sobrevivido no pedaço de floresta onde ninguém procura?
Em 1993 ele publicou a pergunta com todas as letras, na revista de zoologia do próprio Goeldi. O título, em inglês, dizia: "Será que preguiças terrícolas sobreviveram até tempos recentes na região amazônica?"
O candidato dele era uma preguiça relativamente pequena, de um grupo extinto chamado milodontídeos, com cerca de um metro e oitenta de comprimento. Pequena para uma preguiça-gigante. Enorme para um homem sozinho na trilha.
E o encaixe era perturbador. Algumas preguiças extintas tinham pequenos ossos embutidos no couro, uma espécie de armadura por baixo do pelo. Couro que a faca não passa. Bala que não entra. O relato do caçador e o fóssil diziam, de jeitos diferentes, a mesma coisa.
Os relatos vinham de lugares que não se falavam. Um dos fios vinha de Serra Pelada, o garimpo gigante do sudeste do Pará. David Gueiros Vieira, administrador-chefe da mina, recolheu histórias de garimpeiros que juravam ter visto o bicho.
Outro fio vinha do rio Juruá, de entrevistas feitas por Dionísio Pimentel Neto numa viagem de campo. Outro rio, outra gente, relatos do mesmo tipo.
E havia um detalhe honesto, que quase ninguém repete. Pelos relatos, se o bicho ainda sobrevivia em algum lugar, era no extremo oeste: no Acre e no Amazonas. No Tapajós, Oren escreveu que ninguém, até onde ele sabia, tinha um relato de primeira mão com menos de vinte anos. E não para por aí.
Ou seja: o bicho recuava. Quanto mais estrada, garimpo e motosserra, mais longe ficava a última testemunha. Como se a mata estivesse encolhendo em volta dele.
Um homem de catálogo não fica nessa. Oren resolveu ir ver, com equipe, barco e frasco. E o que eles encontraram na mata, e o que ouviram de quem mora lá, é a parte que as reportagens costumam suavizar.
Ato 3 — Barra do São Manuel: o grito
Juntando o que os relatos repetem, a cena costuma ser assim. Fim de tarde. O caçador volta com a caça nas costas. Primeiro vem o cheiro, forte, de coisa podre. Depois, o grito.
O que acontece depois muda de relato para relato. O começo, quase nunca. Não é uma cena de filme. É a mesma cena, contada por gente diferente, em rios diferentes.
O cheiro, você já conhece: é o do caçador do Jamanxim, em 1975, que contou a história à revista Discover em 1999, numa reportagem sobre as expedições de Oren.
O próprio Oren, anos depois, descreveu esse cheiro por escrito, a partir do que ouviu: uma mistura de fezes com carne podre. É esse o cheiro que, segundo o caçador de 1975, entrou nele.
Na Barra do São Manuel, no alto Tapajós, outro caçador contou à mesma revista uma cena mais curta. Ele tinha acabado de abater quatro queixadas, os porcos-do-mato que andam em bando. E então ouviu.
Um grito quase humano, vindo da mata. Um homem que tinha acabado de abater quatro porcos-do-mato não se assusta à toa. Para ele, aquilo era o Mapinguari.
Um cheiro, um grito. Até aqui, ninguém pôs a mão no bicho. Em 2001, Oren escreveu que sete tinham posto.
2001: os sete que disseram ter matado
Agora o número que dá frio. Em junho de 2001, Oren escreveu num boletim científico sobre tamanduás e preguiças que sete caçadores diziam ter matado um Mapinguari. Sete. Em Eirunepé, em Marabá, na Serra do Divisor, onde foram dois, em Juína, em Manicoré e em Carauari.
E aqui vem a parte que ninguém gosta de ouvir. Três desses caçadores guardaram pedaços do bicho. Pelo, garras, até uma mão. Os três, depois, jogaram tudo fora.
Sete mortes de um animal que a ciência não reconhece, três pedaços guardados, e nenhum deles chegou à mesa de um cientista. O bicho morria na história e sumia de novo na floresta. Mas isso ainda não é o que mais incomoda nesse texto.
No mesmo texto, Oren diz que as supostas testemunhas que ficaram cara a cara com o animal passavam de oitenta. O número é dele, não nosso. E cada uma trazia o seu pedaço da mesma descrição.
Se essa investigação te pegou, se inscreva no canal. Cada episódio aqui é um dossiê com fonte, e o próximo já está na mesa. Mais adiante, neste mesmo vídeo, você vai ver o que o laboratório disse.
Porque agora vem a parte que o próprio Oren nunca escondeu. Ele foi à mata buscar a prova. E trouxe amostras.
Ato 4 — 1999: o que voltou nos frascos
Quando a Discover o acompanhou, em 1999, Oren estava na sexta expedição atrás do Mapinguari desde 1994. Somadas, disse ele, davam menos de quatro meses de mata. A revista fala em mais de cinquenta testemunhas entrevistadas.
No campo, a equipe achou pegadas de uns vinte e oito centímetros por treze, com passada de quase um metro. E a própria reportagem lembrava: molde de pegada se falsifica com facilidade. Não era a prova que ele queria.
A prova que ele queria cabia num frasco. Pelo. Um tufo recolhido em campo, durante as buscas. O pelo foi analisado.
Era de cutia. O roedor que qualquer caçador da Amazônia conhece.
E as fezes, mandadas para exame de DNA, não mostraram nada. Com uma exceção: numa das amostras, apareceu tamanduá-bandeira. Um bicho grande, peludo, de garras enormes, que se levanta nas patas de trás quando é ameaçado. Talvez o que mais se pareça, na floresta real, com o Mapinguari da história.
Os frascos, portanto, não trouxeram monstro. Trouxeram a floresta: uma cutia, um tamanduá. E isso precisa ser dito com todas as letras, porque na internet circula que a ciência confirmou o Mapinguari. Não confirmou. O que Oren publicou foi uma hipótese, e o que ele testou deu negativo.
Na mesma reportagem, ele disse uma frase que resume o homem. Se daquela vez não desse certo, ele devia mesmo voltar para a ornitologia. Um cientista dando prazo para o próprio monstro.
2007–2023: a pergunta que ficou no papel
Não voltou de vez. Em 2001, já tinha até trocado de candidato: escreveu que outra família de preguiças extintas, os megaloniquídeos, encaixava melhor nos relatos. É o jeito da ciência trabalhar. Muda a hipótese quando a prova não vem. Em julho de 2007, o New York Times foi ao Acre ouvir a história. O repórter descreveu o bicho como o povo descreve: mais de dois metros em pé, quase imune a bala e a flecha, e uma boca escancarada e fedorenta no meio da barriga.
E Oren, ali, já falava com outro peso. Disse que, para ele, a lenda vinha do contato humano com as últimas preguiças-terrícolas, milhares de anos atrás. Mas se um animal desses ainda existe, isso era outra pergunta. Uma que, nas palavras dele, ainda não dava para responder.
E aqui fica ainda mais estranho. Repare nos números, porque eles contam uma história própria. Mais de cinquenta testemunhas em 1999. Mais de oitenta em 2001. E no jornal de 2007, umas duzentas pessoas que diziam ter visto. Quanto mais gente ele ouvia, maior ficava o Mapinguari. E mais vazio voltava o frasco.
O Mapinguari também não ficou no século passado. Em outubro de 2014, um site de notícias de Porto Velho publicou o relato de catadores de açaí de uma vila à beira do rio Jamari, a uns oitenta e cinco quilômetros da capital. No começo de setembro, na Reserva Sumaúma, um deles disse ter visto uma criatura escura, de uns dois metros, com um olho só, avermelhado como chama.
Um olho só. É o detalhe que o artigo de 1993 tratava como lenda, e não como testemunho. Vinte e um anos depois, voltou como testemunho.
É isso que separa o Mapinguari de monstro de cinema. A história se repete em gente que nunca se viu, em rios que não se encontram. E aí só sobram duas explicações: ou existe um animal, ou existe uma memória muito antiga passando de boca em boca. As duas respostas são assustadoras.
David Oren morreu em 7 de setembro de 2023, em Brasília, aos setenta anos. Não achou o Mapinguari. Mas também nunca disse que achou, e isso, num assunto desses, é raro.
A pergunta que ele deixou se divide em duas. A primeira: existe um bicho grande, desconhecido, na mata funda? Nenhuma amostra disse que sim. A segunda é ainda mais estranha. O que, afinal, aqueles sete caçadores mataram?
Em 2001, o próprio Oren escreveu essa pergunta. Se o Mapinguari está vivo só no folclore, e morto há muito tempo na natureza, o que foi que esses homens abateram? A pergunta ficou no papel. Ninguém respondeu até hoje.
Mas tem uma coisa que os frascos nunca explicaram. O cheiro? O grito? A pegada redonda na lama? Isso ninguém mandou para laboratório. Isso continua lá, com quem estava na trilha.
Encerramento
O Mapinguari é o único monstro desta série que teve um cientista de verdade no encalço, com barco, expedição e frasco. E mesmo assim continua do tamanho que tinha antes dele: o tamanho de uma história.
O que os frascos provaram é que ninguém, até hoje, trouxe um pedaço dele que resistisse ao laboratório. O que eles não conseguem provar é o que tanta gente sentiu na mata.
Se você é do Norte e ouviu esse nome em casa, comenta aqui: como seu avô descrevia o bicho? Tinha um olho só? A boca na barriga? A gente lê todos os comentários.
No próximo episódio, a gente sai da trilha do caçador e entra nos trilhos de ferro. Porto Velho, Rondônia: a Madeira-Mamoré, a ferrovia que ficou conhecida como a ferrovia do diabo, e um cemitério que, segundo a lenda da cidade, ainda recebe visita de noite.
E se um dia você sentir, no meio do mato, um cheiro que não sabe comparar com nada, não fique para descobrir se era cutia.
Fontes
- O Selvagem, Couto de Magalhães (1876) — texto integral
- Contos Populares do Brasil, Sílvio Romero (1885) — texto integral
- Tradição oral ribeirinha (Pará, Maranhão, Amazonas) — relatos sem registro escrito, marcados na narração como "contam", "dizem", "há quem jure".
Critério do canal: só obras em domínio público e relato oral. Como escolhemos as fontes.
Onde ler mais
- O Selvagem — Couto de Magalhães (1876) · ler grátis (domínio público)
- Contos Populares do Brasil — Sílvio Romero (1885) · ler grátis (domínio público)
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