Lenda da Cobra Grande (Boiúna)
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Resumo rápido
A Cobra Grande é a serpente do fundo dos rios da Amazônia. Em língua geral ela é a boia-açu, "cobra grande"; no Pará o povo a chama de Boiúna. Nos livros, ela aparece de três jeitos: como bicho, uma cobra de escamas pretas que engole uma pessoa inteira (Gabriel Soares de Sousa, 1587); como dona do fundo, que guarda a noite dentro de um caroço de tucumã (Couto de Magalhães, 1876); e como filho que perdeu a mãe, não achou fundo no rio e subiu ao céu, nas duas versões que João Barbosa Rodrigues anotou em 1890 no Solimões e no rio Negro.
Ficha em 30 segundos
- Outros nomes
- Boiúna (Pará; Soares de Sousa grafa "Boiuna" em 1587); boia-açu ou bóia uaçu (Barbosa Rodrigues, 1890); Boia-asu e Mãe d'água (Herbert Smith, 1879; Bates, 1863); Cobra Grande (Couto de Magalhães, 1876).
- Onde é contado
- rios e lagos do Pará e do Amazonas. As versões com lugar são do rio Solimões e do rio Negro (1890), de Belém e do rio Purus (rodapé de 1890), do lago Juá, acima de Santarém, e de Cametá, no Tocantins (1876), e dos rios do sertão da Bahia (1587).
- Menção escrita mais antiga que conferimos
- Gabriel Soares de Sousa, Tratado descritivo do Brasil em 1587, no capítulo das cobras grandes que se criam nos rios.
- Traços que as fontes repetem
- vive no fundo da água, é desmedida, muda o rio e aparece onde ninguém espera. Em 1890, os olhos soltam luz como faróis.
- O que não tem documento
- a cobra que dorme debaixo da cidade de Belém, da Sé à Basílica de Nazaré, e a irmã Maria Caninana do Honorato. Nenhuma das duas está nos livros de domínio público que lemos.
Guia da lenda (esta página)VídeoVídeoTranscrição e fontesTranscrição e fontes
A lenda, contada de novo
Uma mulher chega à casa de um homem casado e pede para ficar. Sabe fiar, e fia. Mas a deixam sozinha e não lhe dão de comer, e ela passa a chupar os ovos das galinhas por um furinho, deixando as cascas inteiras. O homem percebe. Volta do mato com dois ovos de mutum, quebra um e põe dentro um fio de cabelo humano. Ela come. A barriga cresce até que ela não anda mais, e um dia, quando o homem a chama para apanhar sorva, quem responde é a barriga: eu vou contigo, minha mãe.
Junto da sorveira, a cobra sai da mulher e sobe pela árvore, engrossando enquanto sobe. O homem tira a sorva mais graúda, esvazia e enche de cuspe; manda a mulher meter a ponta do rabo da cobra na casca. Fogem. Lá de cima, a cobra chama a mãe, e quem responde é a saliva. Em casa, o homem esconde a mulher dentro de um pote e põe terra por cima. A cobra segue o rastro, chama, e ninguém responde. Pula no rio, procura o fundo e não acha. Sobe ao céu. De lá, chama o homem de avô e deixa um pedido: quando eu te chamar, me responde; quando eu aparecer, capina tua roça, que é o começo do verão.
O que dizem as fontes
Gabriel Soares de Sousa, Tratado descritivo do Brasil em 1587
No capítulo sobre as cobras grandes que se criam nos rios da Bahia, Soares de Sousa lista a sucuriú, que anda sempre na água, e, logo depois, a "boiuna": outra casta de cobras, criadas na água e nos rios do sertão, descompassadas de grandes, cheias de escamas pretas, com garganta tamanha que engolem uma pessoa inteira; depois de engolir, metem-se na água para afogar a presa. Ele repete o que diziam os "línguas", os intérpretes que andavam entre os indígenas: houve homens engolidos que, dentro da cobra, a mataram com a faca que levavam pendurada ao pescoço. A cópia digital que usamos tem OCR ruidoso, por isso aqui o trecho é resumido, não citado. É a notícia escrita mais antiga que conferimos da palavra, e nela a boiúna é um animal, sem mãe, dono nem espírito.
Couto de Magalhães, O Selvagem (1876)
No curso de língua geral do livro, Couto publica a lenda tupi Como a noite apareceu, com o texto em tupi e a tradução que lhe deram:
No principio não havia noite — dia sómente havia em todo tempo.
A filha da Cobra Grande, contam, casara-se com um moço.
A noite estava adormecida no fundo das águas, na casa da Cobra Grande, que a entrega fechada num caroço de tucumã. Três criados a soltam antes da hora, e tudo o que estava espalhado pelo mato e pelo rio vira bicho. Aqui a Cobra Grande não engole ninguém: é um pai que guarda. No mesmo livro, Couto registra uma crença de Cametá, no Tocantins:
Ha ainda hoje em Cametá um celebre Honorato a quem a população indígena do lugar, attribue a faculdade de transformar-se em peixe ou em cobra, e viajar pelo fundo dos rios quando lhe apraz.
De quem é a história: Couto diz que recolheu as lendas no Pará, em fevereiro daquele ano, e que o objeto do livro é a língua, não as lendas. O Honorato é uma atribuição que ele ouviu, não um fato sobre o homem.
João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (1890)
Barbosa Rodrigues anotou em língua geral, entre 1872 e 1887, duas versões da Cobra Grande que subiu ao céu, e traduziu as duas. Num rodapé, resume o que ouviu da crença:
Sob este titulo (Cobra grande) ha vários contos, mas que se referem a um ophidío phantastico que vive pelos lagos e rios. A crença quer que seja real a existência d'esse ophidio, cujos olhos dardejam luz como pharóes.
um me disse que em 1835 diariamente apparecia por baixo do forte de Belém, outro que a vio no rio Purús. O que admira é que ambos eram pessoas circumspectas.
A versão do rio Negro é a da mãe escondida no pote:
Immediatamente o homem metteu a mulher n'um pote e poz terra em cima.
Meu avô, escondeste minha màe. Agora vou-me embora para o céo ; não achei logar no rio e quando eu te chamar, me responderás. Quando eu apparecer, capina tua roça, porque será entào o principio do verão.
O Serpentário apparece, no Amazonas, em Setembro e annuncia o verão.
Na versão do Solimões não há homem nem pote. A moça foge da cobra, que pede a mãe à avó, sobe ao céu e grita três vezes enquanto a velha dorme:
É por isso que a gente nâo perde a pelle e só isso acontece com aquillo que respondeu, como lagartos, cobras e arvores. Hoje elle apparece no céo.
Ainda no Solimões, no conto O Uacauan, a cobra grande é a dona de um buraco de pau onde um caçador perdido dorme; ele a chama de avô, e a história termina com a ave que come cobras:
Cortaram um páo e assaram a cobra grande.
De quem é a história: quem contou foram narradores do rio Negro e do Solimões, em língua geral, e quase toda frase traz a palavra paá, "contam, dizem". Quem anotou e traduziu foi Barbosa Rodrigues, que morreu em 1909.
Os viajantes: Bates (1863) e Smith (1879)
O naturalista inglês Henry Walter Bates, depois de contar a morte de uma sucuriju no rio Cupari, escreve:
The natives of the Amazons country universally believe in the existence of a monster water-serpent, said to be many score fathoms in length and which appears successively in different parts of the river. They call it the Mai d'agoa—the mother, or spirit, of the water.
Em português: os nativos do país do Amazonas acreditam, todos, numa serpente d'água monstruosa, de muitas dezenas de braças, que aparece ora num ponto, ora noutro do rio; chamam-na Mãe d'água, a mãe ou o espírito da água. Para Bates, a fábula nasceu de sucurijus fora do comum. Dezesseis anos depois, o americano Herbert H. Smith anotou em Santarém:
The Indians, almost universally, believe in the existence of an enormous water-serpent, which they call Boia-asu or Mai d'Agua, Mother of the Water.
Em português: os indígenas, quase todos, acreditam numa cobra d'água enorme, a Boia-açu ou Mãe d'água. Smith acrescenta que os pescadores atribuem a ela o aparecer e o sumir dos lagos pequenos: os igarapés seriam o rastro do corpo dela.
Versões lado a lado
| Versão | Registro | O que é a Cobra Grande | O que faz |
|---|---|---|---|
| Boiuna | Soares de Sousa, 1587 (Bahia) | Cobra de escamas pretas, desmedida | Engole uma pessoa inteira e mergulha para afogá-la |
| Mãe d'água | Bates, 1863 (Amazonas) | Serpente monstruosa do rio | Aparece em pontos diferentes do rio; para o autor, é sucuriju grande |
| Cobra Grande, pai da noite | Couto de Magalhães, 1876 (Pará) | Dona do fundo das águas | Guarda a noite num caroço de tucumã |
| Honorato | Couto de Magalhães, 1876 (Cametá) | Homem que vira peixe ou cobra | Viaja pelo fundo dos rios |
| Boia-asu | Smith, 1879 (Santarém) | Cobra d'água enorme | Abre e seca lagos; os igarapés são o rastro dela |
| Bóia açu | Barbosa Rodrigues, 1890 (Solimões) | Filho de uma moça, que não larga a mãe | Sobe ao céu e vira o Serpentário; só quem respondeu troca de pele |
| Bóia uaçu | Barbosa Rodrigues, 1890 (rio Negro) | Filho nascido de um ovo com cabelo | Perde a mãe no pote, não acha fundo e anuncia o verão do céu |
| Cobra dos faróis | Barbosa Rodrigues, 1890, rodapé (Belém e Purus) | Ofídio fantástico de olhos que soltam luz | Aparecia todo dia sob o forte de Belém em 1835, segundo um homem |
Tradição oral e documento
O que está documentado: a cobra-bicho de 1587, a dona da noite de 1876, o Honorato de Cametá, a Mãe d'água dos viajantes e as duas versões de 1890, com os dois homens que diziam ter visto a cobra. O que não tem documento: um só enredo. O nome Boiúna, que está em Soares de Sousa, não aparece em Couto nem em Barbosa Rodrigues, que escrevem Cobra Grande, bóia açu e bóia uaçu. A cobra que dorme sob Belém e sobe quando a cidade afunda, a irmã Maria Caninana e os casos com data contados hoje nos rios são tradição oral, e é assim que os tratamos. Em 1890, o próprio Barbosa Rodrigues já dizia que o povo queria que ela fosse real.
O filme
O canal tem dois longos sobre a Cobra Grande: Boiúna, a Cobra Grande, que percorre as versões dos rios do Pará e a lenda da noite de 1876, e Cobra Grande, a mãe escondida no pote, que lê as duas versões de 1890 e o que Bates, Smith e Couto guardaram. Para ouvir devagar, a mesma lenda está em Lendas dos rios, para dormir.
Perguntas frequentes
O que é a Cobra Grande? A serpente do fundo dos rios da Amazônia. Em língua geral, boia-açu quer dizer cobra grande, e é assim que Barbosa Rodrigues (1890) e Herbert Smith (1879) a registram; no Pará, o povo a chama de Boiúna.
Boiúna e Cobra Grande são a mesma coisa? Na tradição do Pará, sim. Nos livros, o nome Boiúna aparece em Gabriel Soares de Sousa (1587), como uma casta de cobra; Couto de Magalhães (1876) e Barbosa Rodrigues (1890) escrevem Cobra Grande, bóia açu e bóia uaçu.
Qual é a origem da lenda da Cobra Grande? A tradição oral dos rios. No papel, a notícia mais antiga que conferimos é de 1587, quando Soares de Sousa descreveu a boiúna como uma cobra que engole uma pessoa inteira. A versão em que ela é dona da noite é de 1876, e as versões em que ela sobe ao céu são de 1890.
Por que a Cobra Grande subiu ao céu? Na versão do rio Negro (1890), ela pulou no rio, procurou o fundo e não achou lugar; então subiu e virou o Serpentário, que, segundo o rodapé do livro, aparece no Amazonas em setembro e anuncia o verão.
O que é a Cobra Grande mãe no pote? A versão do rio Negro anotada por Barbosa Rodrigues: um homem esconde a mãe da cobra dentro de um pote, com terra por cima, e a cobra, sem resposta, vai para o céu.
Quem era o Honorato? Um homem de Cametá, no Pará, a quem a população indígena atribuía o poder de virar peixe ou cobra e viajar pelo fundo dos rios, segundo Couto de Magalhães em 1876. A irmã Maria Caninana, das versões modernas, não está nas fontes que lemos.
A Cobra Grande existe? Os livros tratam como crença e como lenda. Bates (1863) explicou a Mãe d'água por sucurijus muito grandes; Barbosa Rodrigues (1890) anotou que dois homens sérios diziam tê-la visto, e não deu os nomes. Nenhum traz prova.
É a mesma Cobra Norato do poema? O poema Cobra Norato, de Raul Bopp, é obra de 1931, protegida por direito autoral, e não entra nesta página. O que está aqui é anterior: o Honorato de 1876 e as versões de 1890.
Para a sala de aula
Compare a boiúna de 1587, que é um bicho, com a Cobra Grande de 1876, que guarda a noite, e com a de 1890, que chama o homem de avô e pede que ele capine a roça quando ela aparecer no céu. Em que ano e em que rio cada uma foi anotada, e por quem? Peça aos alunos que descubram o que é o Serpentário no céu de setembro. Mais materiais em Professores.
Estante
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- Poranduba Amazonense — João Barbosa Rodrigues (1890) · ler grátis (domínio público)
Traz as duas versões da Cobra Grande que subiu ao céu, do Solimões e do rio Negro, anotadas em língua geral com tradução, e o rodapé com os dois homens que diziam tê-la visto. - O Selvagem — Couto de Magalhães (1876) · ler grátis (domínio público) Comprar no Mercado Livre ↗
É onde a Cobra Grande guarda a noite no fundo das águas, na lenda tupi Como a noite apareceu, e onde aparece o Honorato de Cametá. - The Naturalist on the River Amazons — Henry Walter Bates (1863) · ler grátis (domínio público)
O naturalista inglês anota a crença na Mãe d'água, a cobra monstruosa do rio, e a explica por sucurijus fora do comum. Está em inglês.
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ÁGUAS PROFUNDAS. Lenda da Cobra Grande (Boiúna): origem e fontes. [S. l.], 26 out. 2026. Disponível em: <https://aguasprofundasamazonia.com.br/lendas/cobra-grande/>. Acesso em: [data do acesso].
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Histórico de revisões
- — Primeira publicação, no padrão de guia completo por criatura.
Leia também
- Lenda da Iara: a outra moradora do fundo, a mãe d'água que canta.
- Lenda do Curupira: o dono da mata, no mesmo livro de 1890.
- Lenda do Boitatá: a outra cobra, a de fogo.
- Todas as lendas, com as fontes
- Como escolhemos as fontes
Fontes
- Gabriel Soares de Sousa, Tratado descritivo do Brasil em 1587 (ed. Varnhagen, 1851), capítulo das cobras grandes dos rios da Bahia: edição digital. Resumido, não citado.
- Couto de Magalhães, O Selvagem (Rio de Janeiro, 1876), "Como a noite apareceu" e "Família e religião selvagem": edição digital.
- João Barbosa Rodrigues, Poranduba Amazonense (Rio de Janeiro, 1890), IX "Bóia açu" (Solimões), XI "Bóia uaçu" (rio Negro), "O Uacauan" e os rodapés das pp. 233 e 242: edição digital.
- Henry Walter Bates, The Naturalist on the River Amazons (Londres, 1863), capítulo IX: texto integral. Tradução nossa.
- Herbert H. Smith, Brazil, the Amazons and the Coast (Nova York, 1879), p. 560: edição digital. Tradução nossa.